minha primeira vez com Cole Porter
pra Gustavo, que é bróder.
Ainda tenho uma certa curiosidade por saber como meus amigos desenvolveram as relações que têm com seus compositores favoritos. Já houve época em que achei que o que um compositor representava para alguém dizia mais sobre o caráter dessa pessoa do que qualquer outra coisa, e por muito tempo este foi o critério que estabeleci para iniciar novas amizades e ampliar o diâmetro do meu círculo social no orkut. Felizmente, evoluí muito de lá para cá e hoje sou um ser humano bem menos frívolo, que escolhe os amigos pelo tanto de verdade que enxerga neles e pela disposição que eles apresentam na hora de pagar a conta.
Cole Porter ainda está longe de ser meu compositor favorito, porque só me volto para ele quando estou me sentindo kinda slushy ou assistindo filmes antigos, o que acontece com menos freqüência do que eu gostaria. Mas ele certamente está naquela categoria de compositores que faz todo mundo se lembrar exatamente do que estava fazendo quando ouviu uma música dele pela primeira vez, a roupa que estava vestindo, o resultado do jogo do bicho no dia. Não vejo nenhum problema em contar como foi minha primeira vez com Cole Porter porque sou muito macho e viril e acho que de alguma maneira isso deve servir para que vocês formem uma idéia mais vívida de mim, partindo do pressuposto de que vocês querem muito formar uma idéia mais vívida de mim, o que pode não ser o caso, mas enfim.
Eu assistia pela primeira vez Hannah e Suas Irmãs e fiquei muito impressionado com aquela cena em que o personagem de Woody Allen e uma das irmãs de Hannah estão discutindo em frente a um restaurante. O encontro deles foi um fracasso e naquele momento parece que eles não têm nada em comum. (Me permitam um spoiler: eles têm e terminam o filme juntos) Essa irmã de Hannah tinha levado o personagem de WA a um show de rock e a experiência havia sido desastrosa. Ele, então, a convida para irem a um lugar onde se pudesse ouvir alguma coisa que prestasse. Nesse lugar, Bobby Short está cantando "I’m In Love Again", mas a irmã de Hannah não está gostando nem um pouco e passa o tempo todo cheirando cocaína. Quando eles enfim resolvem ir embora e estão na calçada esperando um taxi, a irmã de Hannah diz que achou tudo um saco, ou algo parecido. É aí que o personagem de WA, duro, sentencia: "Você não merece Cole Porter. Você devia ficar é com aquela gente que parece que vai esfaquear a própria mãe".
Aquela cena mexeu bastante comigo, pois sempre amei muito minha querida mãezinha e de modo algum queria ficar parecido com alguém que fosse esfaqueá-la. Por isso, resolvi dedicar toda a minha existência dali em diante ao projeto de merecer Cole Porter cada vez mais. Eu estava convicto de que isso faria de mim uma pessoa melhor. Pouco me importava que Cole Porter tivesse escrito a maioria das coisas que escreveu para um bando de marmanjos, porque eu já tinha aprendido na escola que existia algo chamado eu-lírico, que permitia que você fizesse o que você quisesse, lhe isentando de toda responsabilidade. Portanto, eu sabia direitinho que uma coisa era Cole Porter, outra coisa era o eu-lírico de Cole Porter, e foi assim que me justifiquei quando meu pai me acusou de estar ouvindo música de bicha e ameaçou cortar minha mesada. Claro que a vontade adolescente de desafiar o pai falou alto, mas me ocorre agora que o que determinou mesmo meu gosto por Cole Porter foi o fato de jurar ter ouvido o verso I get no kick from Sean Penn quando ouvi "I Get a Kick Out of You" pela primeira vez.
Ainda tenho uma certa curiosidade por saber como meus amigos desenvolveram as relações que têm com seus compositores favoritos. Já houve época em que achei que o que um compositor representava para alguém dizia mais sobre o caráter dessa pessoa do que qualquer outra coisa, e por muito tempo este foi o critério que estabeleci para iniciar novas amizades e ampliar o diâmetro do meu círculo social no orkut. Felizmente, evoluí muito de lá para cá e hoje sou um ser humano bem menos frívolo, que escolhe os amigos pelo tanto de verdade que enxerga neles e pela disposição que eles apresentam na hora de pagar a conta.
Cole Porter ainda está longe de ser meu compositor favorito, porque só me volto para ele quando estou me sentindo kinda slushy ou assistindo filmes antigos, o que acontece com menos freqüência do que eu gostaria. Mas ele certamente está naquela categoria de compositores que faz todo mundo se lembrar exatamente do que estava fazendo quando ouviu uma música dele pela primeira vez, a roupa que estava vestindo, o resultado do jogo do bicho no dia. Não vejo nenhum problema em contar como foi minha primeira vez com Cole Porter porque sou muito macho e viril e acho que de alguma maneira isso deve servir para que vocês formem uma idéia mais vívida de mim, partindo do pressuposto de que vocês querem muito formar uma idéia mais vívida de mim, o que pode não ser o caso, mas enfim.
Eu assistia pela primeira vez Hannah e Suas Irmãs e fiquei muito impressionado com aquela cena em que o personagem de Woody Allen e uma das irmãs de Hannah estão discutindo em frente a um restaurante. O encontro deles foi um fracasso e naquele momento parece que eles não têm nada em comum. (Me permitam um spoiler: eles têm e terminam o filme juntos) Essa irmã de Hannah tinha levado o personagem de WA a um show de rock e a experiência havia sido desastrosa. Ele, então, a convida para irem a um lugar onde se pudesse ouvir alguma coisa que prestasse. Nesse lugar, Bobby Short está cantando "I’m In Love Again", mas a irmã de Hannah não está gostando nem um pouco e passa o tempo todo cheirando cocaína. Quando eles enfim resolvem ir embora e estão na calçada esperando um taxi, a irmã de Hannah diz que achou tudo um saco, ou algo parecido. É aí que o personagem de WA, duro, sentencia: "Você não merece Cole Porter. Você devia ficar é com aquela gente que parece que vai esfaquear a própria mãe".
Aquela cena mexeu bastante comigo, pois sempre amei muito minha querida mãezinha e de modo algum queria ficar parecido com alguém que fosse esfaqueá-la. Por isso, resolvi dedicar toda a minha existência dali em diante ao projeto de merecer Cole Porter cada vez mais. Eu estava convicto de que isso faria de mim uma pessoa melhor. Pouco me importava que Cole Porter tivesse escrito a maioria das coisas que escreveu para um bando de marmanjos, porque eu já tinha aprendido na escola que existia algo chamado eu-lírico, que permitia que você fizesse o que você quisesse, lhe isentando de toda responsabilidade. Portanto, eu sabia direitinho que uma coisa era Cole Porter, outra coisa era o eu-lírico de Cole Porter, e foi assim que me justifiquei quando meu pai me acusou de estar ouvindo música de bicha e ameaçou cortar minha mesada. Claro que a vontade adolescente de desafiar o pai falou alto, mas me ocorre agora que o que determinou mesmo meu gosto por Cole Porter foi o fato de jurar ter ouvido o verso I get no kick from Sean Penn quando ouvi "I Get a Kick Out of You" pela primeira vez.
