veja você como as coisas são

February 24, 2007

Já em casa, sentado ao computador, depois de uma jornada estafante no escritório, você vê a chegada do fim-de-semana como o bálsamo que há de recompensar todo esforço, toda dor, e procura a peça de ficção que lhe fará companhia até que o sono venha e o abata. Seu primeiro impulso é tentar encontrar algo no site da New Yorker, mas você já leu aquela estória no fim-de-semana passado e a considerou apenas mediana. Isso é o bastante para que a nostalgia de um tempo que não é o seu lhe assalte, e você mais uma vez deseja ter vivido a década de 50 só para ler algo realmente bom na New Yorker (um John Cheever, talvez). Logo em seguida, porém, você se entristece ao lembrar que a internet não existia naquele tempo e que provavelmente você teria que sair do escritório e se contentar com um José Lins do Rego; um pensamento que lhe causa calafrios, mas ao mesmo tempo lhe deixa um sorriso de triunfo porque, embora possam ter aviltado sua dignidade no escritório, você ainda tem internet e por isso pode ser feliz. Será por causa dela que, tomado de ânimo, você baterá à porta de uma universidade perdida na Holanda que - veja você como as coisas são - lhe fez o favor de piratear The Country Husband, em formato .doc. Daí só será preciso mais um pouco de imaginação para se ver lendo a estória na New Yorker da década de 50 "[n]uma noite na qual reis em trajes dourados cavalgam elefantes pelas montanhas." 

onde estive

February 23, 2007

Dias de carnaval prestando o máximo de atenção para me manter o mais longe possível dele, logo praia. Foi nela que, num desses dias, a inspiração me veio, avassaladora e bela. Passei a escrever, na areia mesmo, um manifesto que começava com a exortação "Levantemo-nos, ó blogueiros esquisitinhos", mas, como no verso daquela canção, a ondá do mara pagou. Pena, pois o manifesto ia propor uma meme que nos obrigasse a escrever posts com mais de cinco parágrafos, keeping our tongues out of our cheeks. Quem não conseguisse seria objeto da infâmia e do desdém, com greve de comentaristas, retirada coletiva dos linques que apontam para seu blog, abrupto corte no suprimento de nescau, mutilação de mamilos.

alhures

February 14, 2007

Depois que o Digestivo Cultural e o Todoprosa fizeram estas gentilezas, acho que fiquei com writer’s block e não consigo completar uma frase com mais de

Que bom que achei uma entrevista antiga de Woody Allen com legendas em francês. Em duas par-tes. E é óbvio que você também riu bastante com ele entre-vistando o missionário Billy Graham. Ia deixar só esses links, mas lembrei que aqui tem alguns escritores falando de seus locais de trabalho (com fotos) e que Camille Paglia* está de volta na Salon, tratando - na mesma coluna - das eleições 2008 e da morte de Anna Nicole Smith**, dentre outros assuntos.

*Padroeira de todos os blogueiros. Greatest blogger ever.

**

Rest in peace, babe.

TMWWT

February 10, 2007

Retomei The Man Who Was Thursday na quarta-feira passada e essa foi a segunda melhor coisa que me aconteceu naquela tarde, a primeira não vou contar. Tinha começado a ler no sábado, mas muita coisa aconteceu naquele dia, tudo tão bom, tão bom que faz você interromper TMWWT e não se arrepender nem um pouco disso depois. Também chamam de felicidade.
 
Sabe, minha formação é cheia de buracos desse tamanho, inexauríveis fontes de vergonha e dor. A essa altura da minha vida, ainda não tinha encontrado ninguém que me tivesse pegado pelos ombros e me sacudido, repetindo LEIA TMWWT, LEIA TMWWT, o que me leva a questionar que diabos eu estava fazendo da minha vida, com que tipo de gente eu andei esse tempo todo, será que eles me amavam de verdade. Porque recomendar a leitura de TMWWT ou, maravilha das maravilhas, emprestar TMWWT para alguém é a maior prova de amor de que tenho notícia. Estive pensando em presentear todos os meus amigos com TMWWTs, mesmo aqueles que não lêem em inglês, pelo resto de nossas vidas. Todo aniversário, eu daria o mesmo presente, e a pessoa ia saber se a amo e há quanto tempo pela quantidade de TMWWTs que tivesse na sua estante.
 
No momento que posto, leio aquela passagem em que o Detetive Syme é apresentado a Sunday e aos outros membros do conselho. Se eu quisesse, já teria terminado o livro, que é fininho e tal, mas estou prolongando o prazer lendo um, dois capítulos por dia e passando o resto do dia pensando nele. No prefácio a essa edição que estou lendo, parece que Kingsley Amis diz não saber como é que Chesterton teve tempo para gerar essa obra-prima enquanto escrevia aquele monte de artigos e etc. Se o prefaciador não disse, eu estou dizendo agora, porque eu também não sei como é que pode uma coisa dessas. Meus blogueiros preferidos, que dizem adorar Chesterton, podiam tentar ser um pouquinho como ele e postar todos os dias, mas não, ficam por aí, feito bestas, se ocupando de nonadas.
 
Acredito em coincidências maravilhosas porque minha vida é repleta delas. Mas não pode ser à toa que a pessoa que veio me emprestar TMWWT e falar sorrindo LEIA LEIA LEIA tenha sido justamente você. Não pode ser à toa que justamente na quarta-feira em que resolvo retomar TMWWT do início o Céu comemore cem anos de sua publicação. Não pode ser à toa que thururururu, clica, bjo. 

c. de cummings (versão de meu cachorro pretensioso)

February 8, 2007

carrego seu coração comigo(carrego-o no
meu coração)nunca estou sem ele(a qualquer lugar que
eu vá você vai,minha querida;e o que quer que seja feito
só por mim é ato seu,meu amor)
                                                                                       não temo
destino algum(pois você é meu destino,meu mel)não quero
mundo nenhum(pois linda você é meu mundo,minha verdade)
e é que você é tudo que uma lua tenha exprimido desde sempre
e tudo que um sol sempre cantará é você

aqui está o segredo mais íntimo que ninguém conhece
(aqui está a raiz da raiz e o botão do botão
e o céu do céu de uma árvore chamada vida;que cresce
mais alto do que a alma possa esperar ou que a mente possa esconder)
e este é o milagre que está mantendo as estrelas afastadas

carrego seu coração(carrego-o no meu coração)

minha primeira vez com Cole Porter

February 3, 2007
pra Gustavo, que é bróder. 
 
Ainda tenho uma certa curiosidade por saber como meus amigos desenvolveram as relações que têm com seus compositores favoritos. Já houve época em que achei que o que um compositor representava para alguém dizia mais sobre o caráter dessa pessoa do que qualquer outra coisa, e por muito tempo este foi o critério que estabeleci para iniciar novas amizades e ampliar o diâmetro do meu círculo social no orkut. Felizmente, evoluí muito de lá para cá e hoje sou um ser humano bem menos frívolo, que escolhe os amigos pelo tanto de verdade que enxerga neles e pela disposição que eles apresentam na hora de pagar a conta.
 
Cole Porter ainda está longe de ser meu compositor favorito, porque só me volto para ele quando estou me sentindo kinda slushy ou assistindo filmes antigos, o que acontece com menos freqüência do que eu gostaria. Mas ele certamente está naquela categoria de compositores que faz todo mundo se lembrar exatamente do que estava fazendo quando ouviu uma música dele pela primeira vez, a roupa que estava vestindo, o resultado do jogo do bicho no dia. Não vejo nenhum problema em contar como foi minha primeira vez com Cole Porter porque sou muito macho e viril e acho que de alguma maneira isso deve servir para que vocês formem uma idéia mais vívida de mim, partindo do pressuposto de que vocês querem muito formar uma idéia mais vívida de mim, o que pode não ser o caso, mas enfim.
 
Eu assistia pela primeira vez Hannah e Suas Irmãs e fiquei muito impressionado com aquela cena em que o personagem de Woody Allen e uma das irmãs de Hannah estão discutindo em frente a um restaurante. O encontro deles foi um fracasso e naquele momento parece que eles não têm nada em comum. (Me permitam um spoiler: eles têm e terminam o filme juntos) Essa irmã de Hannah tinha levado o personagem de WA a um show de rock e a experiência havia sido desastrosa. Ele, então, a convida para irem a um lugar onde se pudesse ouvir alguma coisa que prestasse. Nesse lugar, Bobby Short está cantando "I’m In Love Again", mas a irmã de Hannah não está gostando nem um pouco e passa o tempo todo cheirando cocaína. Quando eles enfim resolvem ir embora e estão na calçada esperando um taxi, a irmã de Hannah diz que achou tudo um saco, ou algo parecido. É aí que o personagem de WA, duro, sentencia: "Você não merece Cole Porter. Você devia ficar é com aquela gente que parece que vai esfaquear a própria mãe".
 
Aquela cena mexeu bastante comigo, pois sempre amei muito minha querida mãezinha e de modo algum queria ficar parecido com alguém que fosse esfaqueá-la. Por isso, resolvi dedicar toda a minha existência dali em diante ao projeto de merecer Cole Porter cada vez mais. Eu estava convicto de que isso faria de mim uma pessoa melhor. Pouco me importava que Cole Porter tivesse escrito a maioria das coisas que escreveu para um bando de marmanjos, porque eu já tinha aprendido na escola que existia algo chamado eu-lírico, que permitia que você fizesse o que você quisesse, lhe isentando de toda responsabilidade. Portanto, eu sabia direitinho que uma coisa era Cole Porter, outra coisa era o eu-lírico de Cole Porter, e foi assim que me justifiquei quando meu pai me acusou de estar ouvindo música de bicha e ameaçou cortar minha mesada. Claro que a vontade adolescente de desafiar o pai falou alto, mas me ocorre agora que o que determinou mesmo meu gosto por Cole Porter foi o fato de jurar ter ouvido o verso I get no kick from Sean Penn quando ouvi "I Get a Kick Out of You" pela primeira vez.
 

é pra vc

February 2, 2007

Dedico este post aos que receberam a indicação deste blog quando buscavam no Google sites que falassem do livro que o Marcola lê, ou da Sônia Braga sem calcinha, ou da Maitê Proença nua, ou de como descobrir quem te bloqueou no MSN, ou de figuras do ursinho Pooh ou dos poetas de 2007. A eles, e só a eles, quero confessar que vinha resistindo tenaz e bravamente já há algumas semanas, mas ontem, às escondidas, de madrugada, fraquejei e baixei o disco novo de Damien Rice, me precavendo para que nenhum de meus inimigos fosse testemunha disso. Certo que não ouvi o disco ainda, mas todos nós já sabemos o que me espera: a voz daquela cantora bonita cujo nome não lembro agora, uns violinos singelamente comoventes, talvez um violoncelo aqui e ali e aquele climão ô meu bem vem cá me abraça. Sinto uma certa vergonha de estar confessando essas coisas aqui, assim, mas vocês que foram sensíveis ao ponto de se interessarem por aqueles temas certamente também serão condescendentes e entenderão este momento que estou vivendo, que nos deixa cafonas e bregas e propensos a ver beleza na face de cada pedinte que eventualmente nos aborde numa mesa de bar.