veja você como as coisas são
Já em casa, sentado ao computador, depois de uma jornada estafante no escritório, você vê a chegada do fim-de-semana como o bálsamo que há de recompensar todo esforço, toda dor, e procura a peça de ficção que lhe fará companhia até que o sono venha e o abata. Seu primeiro impulso é tentar encontrar algo no site da New Yorker, mas você já leu aquela estória no fim-de-semana passado e a considerou apenas mediana. Isso é o bastante para que a nostalgia de um tempo que não é o seu lhe assalte, e você mais uma vez deseja ter vivido a década de 50 só para ler algo realmente bom na New Yorker (um John Cheever, talvez). Logo em seguida, porém, você se entristece ao lembrar que a internet não existia naquele tempo e que provavelmente você teria que sair do escritório e se contentar com um José Lins do Rego; um pensamento que lhe causa calafrios, mas ao mesmo tempo lhe deixa um sorriso de triunfo porque, embora possam ter aviltado sua dignidade no escritório, você ainda tem internet e por isso pode ser feliz. Será por causa dela que, tomado de ânimo, você baterá à porta de uma universidade perdida na Holanda que - veja você como as coisas são - lhe fez o favor de piratear The Country Husband, em formato .doc. Daí só será preciso mais um pouco de imaginação para se ver lendo a estória na New Yorker da década de 50 "[n]uma noite na qual reis em trajes dourados cavalgam elefantes pelas montanhas."
