to foster
No fim do ano passado, de tanto ouvi falar de David Foster Wallace, me dei de presente "Breves Entrevistas com Homens Hediondos", primeiro (e até agora único) livro dele a ser traduzido no Brasil. Mal acabei de ler e já quero reler. DFW parece poder contar uma estória do jeito que ele quiser. São tantas e tão variadas vozes que muitas vezes me peguei pensando "Jesus, mas é um cara só?". <clichê>A prosa dele é realista, e eu tive a impressão de que suas personagens bem poderiam ser pessoas de verdade, como eu e você</clichê>. Todas elas são atormentadas de alguma maneira. Relações humanas, sexo e psicanálise são os temas que mais aparecem, e, ao contrário daqueles que, na falta do que dizer, tentam disfarçar esse vazio com uma prosa metida a revolucionária, DFW sempre tem algo a dizer. Cada conto traz uma experiência formal nova, diferente da anterior, mas tudo está a serviço do que ele quer pigarro comunicar. Lendo os contos, eu tinha a sensação de estar imerso numa experiência que acho que não tinha vivido até então, pelo menos não nessa intensidade: era quase como se as idéias, os temas trabalhados pelas estórias não encontrassem obstáculo entre os cérebros do autor e do leitor. OK, sei que isso não é possível, por isso que eu pus aquele quase ali. Um trecho do livro pode ser lido aqui.
Descobrir um autor novo depois de todo mundo é uma maravilha porque a gente sabe que ainda tem um monte de coisa dele e sobre ele pra ser lida. A quantidade de material que encontrei vai me manter nesse estado de euforia por um bom tempo, acho. (Eu contei que ele é professor?) Um perfil. Um discurso numa cerimônia de formatura. Uma entrevista longa. Uma entrevista curta. Um conto em inglês. Outro. Mais um. Mais dois. Um conto traduzido pro português. Um post do tradutor do conto. (Eu falei que ele é ensaísta também?) Uma resenha/ensaio excelente, tratando de American Usage. (Em alguma lugar, vi compararem esse texto com Politics and the English Language, de Orwell. Vi também quem não tenha gostado tanto assim.) Um ensaio sobre David Lynch. Um ensaio sobre lagostas. Um ensaio comparando um blockbuster tipo Exterminador do Futuro 2 a um filme pornô. Um trecho de um ensaio sobre, sei lá eu, abstração? Um ensaio sobre aquele tenista famoso. Um ensaio sobre o Adult Video News Awards. Uma entrevista na TV. Um site para fanáticos. (Eu falei da mania das notas de rodapé? Uma piadinha, hehehe.) Vejo agora que esqueci de dizer que DFW é o autor de Infinite Jest. Uma coluna tratando do assunto. (Falando nisso, Elton Mesquita traduziu dois capítulos desse livro: aqui e aqui.) Outra piadinha:
Ah, férias.

Estava a ler sobre esse infame aí no blog de Parada e me interessei em “pegar a de fora” nesse livro. Sei que você não quer me emprestar, mas como eu sou mais chato do que você (o que é um grande mérito, pela dificuldade do feito), vou começar a ler no dia 13 depois d’agente encher o barril numa festa , que você vai achar pela cidade. Falei?
Comment by Pedro A. — January 10, 2007 @ 4:56 am
Não é verdade que eu não queira lhe emprestar, meu caro encosto. Ontem mesmo, não emprestei a uma amiga porque já tinha prometido a você. Também é mentira que você seja mais chato do que eu. Tem que comer muito feijão ainda. Sábado? O que é que tem sábado? Que festa é essa? A gente que vai inventar? M’interessei.
Gostou dos linques?
Comment by tiago a. — January 10, 2007 @ 9:44 am
Ô, tenho uns vinte livros pra ler e prometi que ficaria ao menos alguns meses sem comprar mais (estou até com delirium tremens). Eu já havia decidido ler DFW por causa do Elton e do Adrian (http://phobia.wunderblogs.com/), e agora com seus entusiasmados comentários estou me segurando para não quebrar a promessa (na Fnac o livro por R$ 35).
Ah, um detalhe: o Adrian havia dito que a tradução era, digamos, tenebrosa. Mas pelo jeito não faz taaaanta diferença…
Ah, e outra coisa: o título anterior “DFW salvou meu reveillon..” - ou algo assim - já estava bom.
Comment by Luciano — January 11, 2007 @ 12:13 pm
Aê, Luciano, se você não quiser se separar desses 35 reais, nesses links do post tem muita coisa legal. Mas acho que vale a pena comprar o livro apesar da opinião de Adrian. Eu li esse post dele. Parada, por exemplo, elogia demais a tradução. Se você quiser formar a sua própria opinião, os links “Outro. Mais um. Mais dois.” são de contos que fazem parte da coletânea e estão no original.
Apesar de não ter lido o original, achei que a tradução não ficou quadradona e fez o favor de não tirar a fluidez do texto. Mas Daniel Galera disse, em algum lugar, que tem dois contos que são intraduzíveis. Queria saber que contos são esses.
O título anterior. Eu também achava mais legal, mas deixa esse mesmo. É melhor assim. ;)
P.s.: Depois, se você tiver tempo, dá uma olhada nessa patada que DFW deu em Updike. Tener cojones é isso.
Comment by tiago a. — January 11, 2007 @ 1:40 pm
Vi o link do T2, acho que realmente não, mas ele é muito bom mesmo. Agora tô tentando dar conta dessa pilha de links que você colocou aí.
Comment by Saymon Nascimento — January 13, 2007 @ 7:15 pm
Oxe, Saymon, “acho que realmente não”? Acha que realmente não o quê?
Comment by tiago a. — January 14, 2007 @ 5:57 pm
T2 é muito melhor do que ele supõe.
Comment by Saymon Nascimento — January 15, 2007 @ 12:03 am
Ia ser massa se você escrevesse uma réplica e aproveitasse pra explicar por que o cabelo de Arnold não pega fogo no fim.
Comment by tiago a. — January 15, 2007 @ 2:41 am
Diabo! Fui em duas livrarias, Siciliano e Fnac, o livro constava em estoque nas duas, mas, raios, não encontraram nenhum exemplar nas prateleiras. DFW está fugindo de mim. Acho que o jeito será pedir para o Submarino.
Pra compensar e não perder a viagem à Fnac, por R$ 9,90 comprei uma edição Penguim Classics de “Moby Dick” (um ensaio de Updike sobre Melville me animou). Ho-ho, estou dizendo por aí que vou ler no original, mesmo com meu inglês-branquelo-raquítico. Meu Oxford Dictionary desmanchará de tanto uso.
Outra coisa, não consigo olhar esta foto do DFW sem lembrar do Axl Rose (tive que procurar no Google para saber como se escreve “áquissel”, bom sinal). Ô diacho de reconhecimento de padrões.
Comment by Luciano — January 15, 2007 @ 1:17 pm
Engraçado, Luciano, é que DFW tem esse visual, segundo um amigo dele, porque se queixa de suar muito quando faz leituras públicas. Sua tanto que precisa usar uma bandana pra evitar que a transpiração encharque as páginas.
Pode ser, mas eu acho que é só estilo mesmo.
E parabéns pelo Moby Dick.
Comment by tiago a. — January 15, 2007 @ 1:54 pm
Ah, e li a patada do DFW em Updike (ainda estou para ler os outros links). Mas, ué, pelo que li por aí DFW também é muito do exibido (se não no pessoal ao menos na escrita), falo sobre a reclamação de narcisismo exagerado de Updike. “They never belong to any sort of larger unit or community or cause.” eu considero como elogio a Updike. Mas ele citando frases de conhecidos falando sobre Updike: “Has the son of a bitch ever had one unpublished thought?” e “Just a penis with a thesaurus.” é ha-ha-ha! E, Jesus, ele fazendo uma espécie de sumário de quantidade de páginas por assunto do tal “Toward the End of Time” hi-hi-hi :> A resenha é muito divertida.
Curto muito quando o cara é bom, sabe disso e não se incomoda em propagandear. Ser humildezinho é legal, mas pouco divertido. Lembro sempre da resposta de Nabokov quando questionado sobre seu lugar na literatura: “É linda a vista daqui de cima!”. Massa.
Comment by Luciano — January 15, 2007 @ 2:14 pm