esquema para post

January 30, 2007

O post deve iniciar com breve e superficial descrição do ambiente. Usar as palavras casa de minha avó, sombra da mangueira, calor abafado. Falar da quase felicidade que eu sentia por estar ali, lendo um livro, sem maiores preocupações. Talvez especular sobre a experiência de não suar apesar do calor, divagando sobre as possíveis causas do fenômeno e sobre o modo como ele, longe de representar incômodo, tornava tudo ainda mais estranhamente agradável. Tom neutro.

O segundo parágrafo deve remeter ao grande tema da incompletude humana à medida que apresenta a situação-conflito das formigas que mordiam meu pé, perturbando a experiência agradável descrita no parágrafo anterior. Transcrever o trecho exato em que tive de interromper a leitura por causa das formigas. Lembrar de usar a palavra insuportável. Evitar o tom de autopiedade e de justificação antecipada pelo desfecho do post.

Terceiro e último parágrafo mostrará como identifiquei no cimento do pátio da casa de minha avó o ponto exato de onde brotavam as formigas. Usar a expressão fonte da perturbação. Descrever o diâmetro do formigueiro e a relativa frieza (serenidade?) com que escolhi um graveto para entupir o formigueiro. Narrar o desespero das (5? 7?) formigas que não conseguiam mais entrar no buraco. Citar Gn 1:26. Evitar tom herético.

gente boa

January 29, 2007

David Foster Wallace, na New Yorker. (dica de Parada)

"(…) and in worship services he more just tuned himself out and tolerated Hell when it came up, the same way you tolerate the job you’ve got to have to save up for what it is you want." - sem querer, pensei no fim das férias ao ler isso.

c. de cummings

somewhere i have never travelled,gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look will easily unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose

or if your wish be to close me,i and
my life will shut very beautifully,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands

sic

Esse é o cantor internacilnal Matisyahu.O engraçado é q as mulheres não podem pegar nele.Eu não sabia fui chamar ele futucando com o dedo…sabe o q aconteceu???? o segurança deu um gritio-NÃOOOOOOOOO nossa eu quase caia dura no chão.Que susto!!!! mais ele é ótimo pra foto só não pode triscar nele.Muçulmano…entendem agora o porque???

A pessoa que escreveu isso está sorrindo atrás desse quadrado amarelo (que na verdade, como todo quadrado, é um retângulo, repare). Trata-se da caçadora de artistas. De acordo com seu perfil no orkut, seu hobby é tirar fotos com pessoas famosas. "Isso me deixa feliz", diz ela, provando que ser feliz é muito simples.

viver intensamente

January 28, 2007

Assisti uma comédia romântica em que o protagonista, depois de receber a notícia de que tinha um tumor maligno no cérebro, resolve viver a vida intensamente e por causa dessa decisão encontra a mulher de sua vida, a enfermeira que cuidava dele no hospital. No fim do filme, a gente descobre que o diagnóstico na verdade era de um outro paciente (o funcionário público careca), e o protagonista, todo feliz, todo saudável, casa com a enfermeira mulher de sua vida enquanto os créditos sobem ao som de uma daquelas musiquinhas bastante animadas. Sempre sou muito influenciado por filmes assim e saí do cinema decidido a não esperar nem mais um minuto pra começar a viver a minha própria vida da maneira mais intensa possível. Fui pro bar da esquina, pedi uma cerveja e puxei conversa com o carinha que estava ao meu lado no balcão. Na primeira crítica que ele fez a uma opinião minha, dei-lhe um murro na boca e só parei de chutá-lo quando um dos caras que estavam com ele quebrou uma garrafa na minha nuca. Não lembro de muita coisa depois disso, só sei que a confusão foi generalizada e que me falta um dente e que viver é mesmo muito bom. 

January 25, 2007

Bem que Bruno Galera tinha dito. Este fone Philips SHE-255 é fantástico. E pensar que quase que dá tudo errado porque, de tão empolgado que fiquei com a dica, comprei meio às cegas e esqueci de conferir o principal: o plug do fone é 3.5 mm, e a entrada do meu MP3 player é 2.5 mm, o que só percebi quando o fone chegou. Você deve imaginar meu desespero após essa constatação. Testei o fone no computador e o som era tão bom, mas tão bom, com graves tão definidos, que encomendei um adaptador, mais caro que o próprio fone, inclusive. Estou completamente insolvente, mas valeu a pena. Dá pra ouvir no talo sem distorção, é uma beleza. Se você tem algo a me dizer, aproveite e diga logo. Acho que vou ficar surdo.

January 24, 2007
Aviso chocante a uma nação estupefata: o a craseado não é nenhuma monstruosidade abominável, é apenas o feminino da contração “ao”. É o equivalente de “aa”, onde o primeiro “a” significa a preposição “a” (ou “para”) e o segundo o artigo definido “a”. Quem quer que leve mais de dois segundos para entender isso e mais de três para aprender a aplicá-lo corretamente é um retardado mental, incapacitado para o exercício da cidadania adulta.
Olavo de Carvalho, no Diário do Comércio.
 

72 virgens

Steve Martin fazendo graça, clica. Minhas 5 preferidas: 14, 29, 32, 36 e 70.

aos jovens poetas

January 22, 2007

ENTREVISTADOR
Como um jovem poeta pode saber se sua obra tem algum valor? 

PHILIP LARKIN
Acho que um jovem poeta, ou um velho poeta, da mesma forma, devia tentar produzir algo que pessoalmente o agradasse, não apenas no momento em que escreveu, mas também algumas semanas mais tarde. Daí, devia ver se aquilo agrada mais alguém, enviando para o tipo de revista que ele gosta de ler. Mas caso não agradasse, não deveria se sentir desencorajado. Digo, no século XVII todo homem educado podia compor um verso e tocar alaúde. Já pensou se as pessoas não jogassem tênis só porque não vão chegar a Wimbledon? Primeiramente e antes de tudo, escrever poemas deveria ser um prazer. Assim como lê-los, por Deus.

Supposing no one played tennis because they wouldn’t make Wimbledon? Fiquei com vontade de linkar essa entrevista de Philip Larkin só por causa dessa frase, que justifica toda a minha existência, mas que meu cachorro não conseguiu traduzir direito. Tem uma hora lá em que o entrevistador pergunta se Borges era o único outro poeta contemporâneo famoso que, como Larkin, também era bibliotecário ou se ele conhecia outros. "Quem é Jorge Luís Borges?" é o começo da resposta, hehehe.

do dia em que aprendi que “yakult” quer dizer “saúde” “iogurte” em esperanto

January 21, 2007
Fosse este blog um poucochinho mais confessional, eu lhes descreveria como dançar arrocha numa festa de rock ao som de Arctic Monkeys (ou algo bastante similar) enquanto indies observavam, completamente estarrecidos, se tornou uma das experiências mais divertidas que já tive nessa vida.
 

ei, moça, dá pra mim?

January 18, 2007

i’m talkin’ bout da book, u dirty people. (link via)

momento indie

January 15, 2007

Só hoje, graças ao stumbleupon de Soares Silva, vi essa versão acústica de Hey Ya, que é uau, dá até pra entender a letra. Descobri que o gordinho barbudo se chama Mat Weddle, é do Arizona e tem uma banda chamada Obadiah Parker. Na página deles no MySpace, dá pra baixar a versão e ouvir mais coisas. Eles dizem fazer uma mistura de funk, R&B, gospel, blues e folk. É legalzinho. O mais exótico, porém, foi saber que eles fizeram um cover de Mama Africa de Chico César. Queria ouvir.

SJSJSJSJSJSJSJSJSJSJ

Lembro bem do ceticismo estampado na cara da última pessoa que me ouviu dizer que a Scarlett Johansson que conhecemos (i.e. linda linda linda) não era real, mas sim um produto da nossa imaginação. (Noto daqui sua expressão de "Oh, não diga", mas saiba que sou o primeiro a reconhecer o tamanho da platitude. Se falo coisas assim em público é porque sei que tem quem não consiga enxergar isso.) Pelo que você deve imaginar como eu fico besta toda vez que vejo que a SJ real é ainda mais linda. Ah, morder essa barriga.
 

to foster

January 10, 2007

No fim do ano passado, de tanto ouvi falar de David Foster Wallace, me dei de presente "Breves Entrevistas com Homens Hediondos", primeiro (e até agora único) livro dele a ser traduzido no Brasil. Mal acabei de ler e já quero reler. DFW parece poder contar uma estória do jeito que ele quiser. São tantas e tão variadas vozes que muitas vezes me peguei pensando "Jesus, mas é um cara só?". <clichê>A prosa dele é realista, e eu tive a impressão de que suas personagens bem poderiam ser pessoas de verdade, como eu e você</clichê>. Todas elas são atormentadas de alguma maneira. Relações humanas, sexo e psicanálise são os temas que mais aparecem, e, ao contrário daqueles que, na falta do que dizer, tentam disfarçar esse vazio com uma prosa metida a revolucionária, DFW sempre tem algo a dizer. Cada conto traz uma experiência formal nova, diferente da anterior, mas tudo está a serviço do que ele quer pigarro comunicar. Lendo os contos, eu tinha a sensação de estar imerso numa experiência que acho que não tinha vivido até então, pelo menos não nessa intensidade: era quase como se as idéias, os temas trabalhados pelas estórias não encontrassem obstáculo entre os cérebros do autor e do leitor. OK, sei que isso não é possível, por isso que eu pus aquele quase ali. Um trecho do livro pode ser lido aqui.

Descobrir um autor novo depois de todo mundo é uma maravilha porque a gente sabe que ainda tem um monte de coisa dele e sobre ele pra ser lida. A quantidade de material que encontrei vai me manter nesse estado de euforia por um bom tempo, acho. (Eu contei que ele é professor?) Um perfil. Um discurso numa cerimônia de formatura. Uma entrevista longa. Uma entrevista curta. Um conto em inglês. Outro. Mais um. Mais dois. Um conto traduzido pro português. Um post do tradutor do conto. (Eu falei que ele é ensaísta também?) Uma resenha/ensaio excelente, tratando de American Usage. (Em alguma lugar, vi compararem esse texto com Politics and the English Language, de Orwell. Vi também quem não tenha gostado tanto assim.) Um ensaio sobre David Lynch. Um ensaio sobre lagostas. Um ensaio comparando um blockbuster tipo Exterminador do Futuro 2 a um filme pornô. Um trecho de um ensaio sobre, sei lá eu, abstração? Um ensaio sobre aquele tenista famoso. Um ensaio sobre o Adult Video News Awards. Uma entrevista na TV. Um site para fanáticos. (Eu falei da mania das notas de rodapé? Uma piadinha, hehehe.) Vejo agora que esqueci de dizer que DFW é o autor de Infinite Jest. Uma coluna tratando do assunto. (Falando nisso, Elton Mesquita traduziu dois capítulos desse livro: aqui e aqui.) Outra piadinha:

 

Ah, férias.

ah, não sei, achei isso tão poético

January 8, 2007
 
lemming noun [countable] a small animal that looks like a rat. Lemmings are known for following each other in large numbers and killing themselves by jumping off cliffs into the sea.
 
 
 
in LDoCE

coisa que eu sei

January 6, 2007
Salinger tem um perfil no orkut, mas não adiciona ninguém e não está em comunidade nenhuma. Ele tem MSN, mas bloqueou todos os contatos e só entra offline. Desde a década de 60 que ele não publica um post novo, e você nem pode reclamar disso porque o blog dele não tem caixa de comentários.
 

foi assim

January 4, 2007

Rolei de lado, ajeitei o travesseiro pela última vez. Lá fora, barulho de hóspedes colocando malas, coisas em carros, voltando para os lugares de onde vieram. O quarto já estava cheio de uma luz bem fraquinha, me dizendo que eu podia desistir de tentar dormir, levantar. Levantei. Lavei o rosto, vesti a camiseta regata verde amassada, peguei o livro, saí. Desejei BOM DIA aos hóspedes que se preparavam para a viagem de volta, sorri OLÁ para a menininha sentada na escada da pousada. O dia prometia ser bonito, recompensa para a noite mal-dormida, ruim. Resolvi caminhar até a praia, sentei na areia, abri o livro, olhei o mar. A quatro dedos acima da linha do horizonte, umas nuvens de chuva, lá longe. No meio da página 152, vi o sol surgindo devagarinho. Ele foi nascendO nascENDO nASCENDO e em pouco tempo estava INTEIRO, sobre o mar, sob as nuvens. Sorri o meu segundo sorriso do dia. Tinha esquecido como é bonito ver o sol nascer. Fiquei feliz.