da crítica
A atenção que dou a todas as críticas de todos os críticos do mundo inteiro é semelhante à que de mim recebem os ofícios dos camponeses do sul da Albânia, dos engenheiros afrodescendentes da NASA e dos veterinários gays da Polônia, se é que lá existe algum veterinário, se é que existe alguma Polônia - no fundo, no fundo, todos nós duvidamos disso. Mas, por favor, veja bem. Eu não disse que não gosto do trabalho dos críticos, eu disse apenas que é um trabalho que não me faz dizer oh; e talvez seja por isso que às vezes eu me divirta tanto com eles.
O que um crítico diz é apenas uma das muitas reações que um determinado produto cultural pode gerar e eu poderia encher esse parágrafo com palavras pomposas e feias como polissemia, sujeito, significante, mas acho que já passei dos limites com aquele "produto cultural" ali. Espero muito que você tenha entendido o que eu queria dizer, porque me deu preguiça de seguir adiante com esse papo chato.
Como eu ia dizendo, os críticos produzem por vezes grandes momentos de humor involuntário, dos quais eu não vou fornecer muitos exemplos agora, torcendo pra que você também não me julgue muito antipático por isso. Em dias de chuva e vento forte, quando canso de contemplar o bamboar da goiabeira do meu quintal, gosto de vaga(bundea)r pelo metacritic, me deliciando com as vari(eg)adas opiniões dadas sobre um determinado livro, ou filme, ou disco, ou ah, chega. Esse livro novo de Thomas Pynchon, por exemplo, até agora recebeu 8 outstanding critics and 5 unfavorable ones. O mesmíssimo livro. Não é engraçado isso? Ah, não sei vocês, mas eu não consigo parar de rir aqui, hahahahaha.
É por isso que eu não entendo por que tem tanta gente que leva crítica tão a sério. Ô, pessoas, crítica é opinião e opinião é só opinião e é bom não esquecer que esse é um mundo de muito jabá e resenha feita às pressas e regurgitar de press releases, nossa, regurgitar, hoje eu tô que tô. Se um crítico falou mal de seu artista preferido, é só procurar um que tenha falado bem. Afinal, crítico honesto é aquele que concorda com a gente e gosta das coisas que a gente gosta; conforte-se com a certeza de que, assim como Paris, sempre haverá de haver um blogzinho que seja com alguma crítica honesta perdido por aí.

O que eu mais gosto é daquelas frases isoladas, tipo “gloriously fizzy” e “rich and sweeping, wild and thrilling”. Realmente engraçado.
Comment by Gustavo — December 17, 2006 @ 12:15 pm
Ah, crítica honesta é raríssimo por aí. Geralmente aqueles que dedicam seu tempo a fazer críticas gostam do mesmo que nós pelos motivos mais estranhos. Tipo gostar d’O homem duplicado por causa disto: “It is Mr. Saramago’s idiosyncratic post-Marxist dialectic: materialist but only as a way to ground the soul ” e disto: “Like God, this octogenarian Communist and devout atheist blows upon dust and creates humans, only his come to life still dusty”.
Veja uma lagriminha escorrer pelo meu rosto agora.
Comment by Gustavo — December 17, 2006 @ 12:49 pm
Exatamente: a questão não é a crítica, essa coisa coletiva, mas os críticos. Falando bem, mal, concordando, discordando, muitos devem ser levados a sério, individualmente, pela sua contribuição a nosso entendimento de qualquer, ahem, produto cultural - coisa que os bons sempre conseguem devido a fatores como experiência ou mesmo um olho muito bom.
Por isso que o Metacritic é mesmo risível.
Comment by Saymon Nascimento — December 18, 2006 @ 3:43 am
O Ariano Suassuna faz a exata mesma observação que você. Nas 6 páginas do preâmbulo do “O Santo e a Porca” (ou pelo menos em uma das edições do livro) ele se assusta com a tal opinião sobre a obra - com números e estatíscas colhidos sobre uma de suas peças (e mete o pau tanto nos críticos como no público). Em tempo: seu blog é genial. Engraçado. Inteligente. Agradeça o Sergio Rodrigues pela indicação. Eu já agradeci.
Comment by Pedro Campos — February 28, 2007 @ 4:52 pm