oi. postarei assim que puder. abraço.

December 24, 2006

V: With me it’s just the opposite.

E: In other words?

V: I get used to the muck as I go along.

E: (after prolonged reflection). Is that the opposite?

V: Question of temperament.

E: Of character.

V: Nothing you can do about it.

E: No use struggling.

V: One is what one is.

E: No use wriggling.

V: The essential doesn’t change.

E: Nothing to be done.

vem cá, Orhan, por que você escreve?

December 20, 2006
A pergunta que, com maior freqüência, é dirigida a nós, escritores, a pergunta favorita, é: por que vocês escrevem? Escrevo porque tenho uma necessidade inata de escrever. Escrevo porque não posso ter um trabalho normal como as outras pessoas. Escrevo porque quero ler livros iguais aos que eu escrevo. Escrevo porque estou irritado com todo mundo. Escrevo porque adoro ficar sentado numa sala, escrevendo o dia todo. Escrevo porque só consigo tomar parte da vida real transformando-a. Escrevo porque quero que os outros, o mundo inteiro saiba que tipo de vida nós vivíamos e continuamos a viver, em Istambul, na Turquia. Escrevo porque amo o cheiro de papel, caneta e tinta. Escrevo porque acredito na literatura, na arte do romance, mais do que em qualquer outra coisa. Escrevo porque é um hábito, uma paixão. Escrevo porque tenho medo de ser esquecido. Escrevo porque gosto da glória e do interesse gerados pelo ato de escrever. Escrevo para ficar sozinho. Talvez eu escreva porque espero entender por que estou tão, tão irritado com todo mundo. Escrevo porque gosto de ser lido. Escrevo porque, tendo começado um romance, um ensaio, uma página, eu quero terminar. Escrevo porque todo mundo espera que eu escreva. Escrevo porque tenho uma crença pueril na imortalidade das bibliotecas e na maneira como meus livros ficam na estante. Escrevo porque é instigante transformar todas as belezas e riquezas da vida em palavras. Escrevo, não para contar uma estória, mas para compor uma estória. Escrevo porque desejo escapar do mau presságio de que há um lugar aonde eu devo ir, mas aonde - como num sonho - não posso chegar por completo. Escrevo porque nunca consegui ser feliz. Escrevo para ser feliz.
Orhan Pamuk disse algo parecido com isso em seu discurso de agradecimento do Nobel de Literatura. Foi meu cachorro quem traduziu e ele gostaria de agradecer a Maureen Freely por ter traduzido do turco para o inglês. Ele não sabe turco.
 

da crítica

December 17, 2006
 
A atenção que dou a todas as críticas de todos os críticos do mundo inteiro é semelhante à que de mim recebem os ofícios dos camponeses do sul da Albânia, dos engenheiros afrodescendentes da NASA e dos veterinários gays da Polônia, se é que lá existe algum veterinário, se é que existe alguma Polônia - no fundo, no fundo, todos nós duvidamos disso. Mas, por favor, veja bem. Eu não disse que não gosto do trabalho dos críticos, eu disse apenas que é um trabalho que não me faz dizer oh; e talvez seja por isso que às vezes eu me divirta tanto com eles.
 
O que um crítico diz é apenas uma das muitas reações que um determinado produto cultural pode gerar e eu poderia encher esse parágrafo com palavras pomposas e feias como polissemia, sujeito, significante, mas acho que já passei dos limites com aquele "produto cultural" ali. Espero muito que você tenha entendido o que eu queria dizer, porque me deu preguiça de seguir adiante com esse papo chato.
 
Como eu ia dizendo, os críticos produzem por vezes grandes momentos de humor involuntário, dos quais eu não vou fornecer muitos exemplos agora, torcendo pra que você também não me julgue muito antipático por isso. Em dias de chuva e vento forte, quando canso de contemplar o bamboar da goiabeira do meu quintal, gosto de vaga(bundea)r pelo metacritic, me deliciando com as vari(eg)adas opiniões dadas sobre um determinado livro, ou filme, ou disco, ou ah, chega. Esse livro novo de Thomas Pynchon, por exemplo, até agora recebeu 8 outstanding critics and 5 unfavorable ones. O mesmíssimo livro. Não é engraçado isso? Ah, não sei vocês, mas eu não consigo parar de rir aqui, hahahahaha.
 
É por isso que eu não entendo por que tem tanta gente que leva crítica tão a sério. Ô, pessoas, crítica é opinião e opinião é só opinião e é bom não esquecer que esse é um mundo de muito jabá e resenha feita às pressas e regurgitar de press releases, nossa, regurgitar, hoje eu tô que tô. Se um crítico falou mal de seu artista preferido, é só procurar um que tenha falado bem. Afinal, crítico honesto é aquele que concorda com a gente e gosta das coisas que a gente gosta; conforte-se com a certeza de que, assim como Paris, sempre haverá de haver um blogzinho que seja com alguma crítica honesta perdido por aí.

like a four-leaf clover

December 16, 2006

Tá, tudo bem, eu confesso que, como todos vocês, só assisti Anything Else pra ver Christina Ricci de calcinha e até que me diverti bastante, mind you. Principalmente com o diálogo daquela hora em que ela chega em casa com Jason Biggs depois da festa em que ela apresentou ele a uma amiga dela que era atriz. Nesse filme Christina é meio maluca e quer que ele fique com outras mulheres, lembram disso?

Bem, eu sabia que vocês não iam se lembrar, por isso tive todo esse trabalho de locar o filme mais uma vez só pra transcrever o diálogo em questão pra vocês, meus queridos amigos; que mentira, peguei aqui. E não é preciso que ninguém me diga o quão lowbrow é fazer um post sobre um diálogo de um filme menor de Woody Allen, me deixem:

"Are you in love with Connie?" "Connie?" "Don’t pretend you can’t remember her name." "I wouldn’t have even looked at Connie if you hadn’t thrown us together." "I thought you’d like her. She’s smart and beautiful and very literate." "A literate actress? What is that? Like a four-leaf clover?" - foi aqui que eu ri, que leviandade.

Na verdade, eu só queria dar a dica do texto da filha de Fernanda Montenegro no número desse mês daquela revista lá. Eu gostei, então deve ser bom. It’s like a four-leaf clover.

por que as mulheres não são engraçadas?

December 14, 2006
 
É a pergunta que Christopher Hitchens se fez na Vanity Fair. Calma, querida, antes de acrescer "misógino" à coleção de epítetos negativos que ele já carrega, leia o artigo.
 
E é muito rude ficar discordando de polemistas, eu sei, mas teve uma hora em que eu não pude deixar de balançar a cabeça e fazer tsc-tsc. Foi quando ele disse que "[p]recisely because humor is a sign of intelligence (and many women believe, or were taught by their mothers, that they become threatening to men if they appear too bright), it could be that in some way men do not want women to be funny. They want them as an audience, not as rivals."
 
Não, Mr. Hitchens, não. Nada pode ser melhor que uma mulher too bright - querida, não ouça sua mãe - e eu tendo a gostar mais das que não são nem audience, nem rivals, mas sim allies - o que, tá, you’re spot-on, é um pouco raro de se encontrar (valeu, Gustavo).

não publique, seja feliz

December 13, 2006

In any case, here are examples of some typical bad reasons to publish a book:

  • I think I oughta be a published book-author.
  • My friends will be impressed.
  • I always dreamed of seeing a book of mine on the shelf at the bookstore.
  • Being published will make my life worthwhile.
  • I have something that deserves to live for the ages.
  • I have a contribution to make to literature.
  • My genius demands that I publish a book.
  • Publishing a book will change my life for the better.
  • Publishing a book will put me in the company of people — agents, edtiors, writers, intellectuals — who will appreciate me in a way my friends and neighbors don’t.

Ahahhahahahah! What fun it is to list the ways dreamy people delude themselves. Oh, let me wipe away the laughter-tears … Now, where was I?

Michael, do 2blowhards, dá algumas dicas pra quem sonha em ser "publicado", a principal delas sendo "deixa disso, meu filho, cria um blog".

enquete

December 11, 2006

É o teatro contemporâneo apenas um pretexto para as pessoas mostrarem a bunda em público?

les vieux

December 9, 2006

Da próxima vez que você passar pelo Campo Grande num fim de tarde, repare nessa turma de velhinhos que se reúne ali. Serão uns 10 ou 12, vai variar a depender do dia. Eles vão estar todos bem vestidos, alguns de chapéu. Sempre que estou por lá e tenho a sorte de encontrá-los, sento no mesmo banco que eles, faço cara de paisagem e fico ouvindo as conversas, as lembranças, as risadas, o relato da última traquinagem da netinha. Não sei a história de nenhum deles individualmente e acho que não conseguiria reconhecê-los em outro lugar, mas, já há algum tempo, sentar perto deles tem sido o mais próximo que eu consigo chegar de pessoas verdadeiramente felizes.

E, no entanto, não sei por que essa canção de Brel mexe tanto comigo. Toda vez que a escuto, não consigo parar de pensar nos pianos fechados, no gatinho que morreu, nesse mundo que se resume a ir da cama pra janela, depois da cama pro sofá e depois da cama pra cama. No fim, tudo o que eu mais quero é rejeitar esse retrato triste e continuar em paz com minha imagem dos velhinhos no Campo Grande.

Clique, as legendas estão naquele dialeto do português. Totalmente chegou alegria.

coisa que me aconteceu

December 6, 2006
Peguei um ônibus ontem de manhã pra ir pro colégio e tive a sorte de ir sentado. Eu adoro quando isso acontece porque assim eu posso ler um pouco, e era bem isso que eu estava fazendo quando uma garota parou do meu lado e ficou em pé porque não tinha mais lugar pra ela sentar. Eu até pensei em dar o meu lugar pra ela, mas aquele livro que eu estava lendo era muito bom e ela podia achar que eu estava achando, sei lá, que ela era velha ou que ela estava grávida. O cabelo dela era comprido e estava meio molhado, a cara dela estava fresquinha e parecia a cara de alguém que acabou de sair do banho e não se enxugou direito. A pele dela era morena clara e ela estava segurando um caderno da capa verde-cana. Eu me senti bem porque a capa do caderno dela não era de nenhum desenho bobo e fiquei olhando pra ele por um bom tempo, aproveitando pra olhar pra ela também. Teve uma hora que ela percebeu e parece que sorriu com o canto da boca, só que eu sou tímido e quando coisas assim acontecem eu sempre desvio o olhar e finjo que não estava olhando nada não. O ônibus estava meio cheio e quando ele fez uma curva a cintura dela ficou bem perto da minha cara e deu pra sentir o cheiro da barriga dela, esse cheiro está na minha cabeça até agora. Eu perguntei se ela queria que eu segurasse o caderno, ela agradeceu com um sorriso bem bonito, mas sem mostrar os dentes. Ela me deu o caderno e eu fiquei olhando pra capa dele. De vez em quando eu disfarçava e olhava pra ela. Quando o ônibus estava chegando perto da Escola X, ela pediu o caderno de volta, agradeceu de novo e desceu. Eu olhei pra ela pela janela do ônibus, a luz do sol batia no cabelo e na pele dela, era muito lindo. Ela ainda estava com aquele sorriso bonito que eu falei e eu lembro que nessa hora eu fechei o livro e sorri, sozinho. Depois fiquei pensando nela o dia todo.
 

me engana, que eu gosto

December 5, 2006
Nem eu nem as pessoas envolvidas no projeto dissemos que a Piauí seria a New Yorker brasileira. Seria meio bobo e pretensioso afirmar isso. A New Yorker é o resultado de um momento específico do jornalismo americano: um grupo extraordinariamente talentoso de escritores oriundos de diversas partes dos EUA (quando não do mundo) encontraram-se na cidade que, àquela altura, já tomava o lugar de Paris como centro da vida literária mundial. Isso não se reproduz em lugar nenhum. A Piauí é uma revista nova, inventada do zero. Temos nossas admirações – Senhor, Pasquim, New Yorker, Realidade, Opinião – mas admirar é uma coisa, copiar é outra. Não há nada muito parecido com a Piauí. Nem aqui, nem fora. 
 
João Moreira Salles, editor de piauí, em entrevista ao Digestivo Cultural. 

mais do meme

December 1, 2006

Eu não entendo essa gente que não gosta de meme. Será que elas não vêem que esse é um momento de confraternização, de integração, de frivolidade e alegria entre os blogueiros? As pessoas que dizem detestar meme são as mesmas que acham o Natal uma festa comercial, só mais um produto desse capitalismo cruel e que costumam taxar como convenção pequeno-burguesa tudo o que há de bom nessa vida. São chatas. Merecem ir para o inferno.

Luciano, muito gentilmente, me passou essa meme cuja contrainte é falar sobre três autores que foram abandonados, e eu fiquei lisonjeado. Valeu, Luciano.

Bem, eu deixo um escritor falando sozinho por muitos motivos, dentre os quais o maior é a chatice mesmo. Mas não vou tratar do que me faz abandonar um autor, me deu preguiça. Ao invés, vou revelar as espécies de arrependimento que sinto depois que desisto de vez, aproveitando para nomear um autor para cada uma delas.

Arrependimento por ter começado. Eu me arrependo por um dia ter lido Jorge Amado. Meus amigos até tentam me consolar, dizendo que seria praticamente impossível nascer aqui e não ler nenhum livro dele, mas eu não me conformo. Parei de comer cacau para nunca mais me lembrar dessa desgraça.

Arrependimento por não ter largado antes. Isto eu sinto por Sartre. Quando eu era bem mais jovem, ano passado, botei na cabeça que ia ler os romances de Sartre e resolvi começar pela tal Trilogia da Liberdade. Me lembro de ler Idade da Razão e, a cada página que virava, murmurar Meu Deus, que chatice isso, mas fui até o fim. Infelizmente. Tenho muita vergonha disso.

Arrependimento por não ter insistido. Joyce. Quem sou eu para dizer que é chato? Jamais. Longe de mim. Tudo o que eu sei é que uma tarde dessas eu folheava Ulisses, tentando ler o monólogo de Molly e só ficava perguntando O que é isso, Jesus, o que é isso? Dá dor de cabeça só de lembrar.

Agora, seguindo a regra e para não deixar a festa acabar, eu tenho que passar o brinquedo para mais três blogueiros. Gustavo, porque em outubro ele se despediu para ler uma pilha de livros e não comentou nada sobre a experiência. Gabi, porque eu gosto de passar meme para ela. E Parada, porque é um leitor que eu admiro muito.