as mulheres do meu tempo
Ainda não me conformei com o infortúnio de ter nascido na era da vulgaridade e de, portanto, ser obrigado a conviver com suas mulheres. Garanto que poucas experiências podem ser tão desagradáveis quanto ver e ouvir uma menina feia e descabelada correndo e berrando ME F*DI, ME F*DI pelos corredores de uma universidade pública numa manhã de quarta-feira.
É bem famosa a tese de que até a revolução feminista (sic) se negava à mulher o direito de projetar seu intelecto além do necessário ao cumprimento das atividades domésticas, mas por causa de Jane Austen eu me recuso a acreditar nisso. Por outro lado, não posso negar alguma razão a quem defenda essa tese, principalmente quando confiro o que a História tem a nos dizer sobre o porquê de minha vizinha insistir em usar roupas de lycra sabidamente moldadas para corpos menores que o dela.
Depoimentos academicamente confiáveis informam que tudo se passou numa daquelas viagens de kombi ao litoral paulista tão comuns na fatídica década de 70. Todo mundo sabe que as mulheres daquela geração, quando não estavam sob o efeito de cogumelos alucinógenos, só conseguiam pensar por meio de silogismos - uma característica das mentes inferiores - e isto se dava porque elas eram burrinhas mesmo. Conta-se que uma das ripongas tomou a premissa maior de que os homens eram vulgares, enrolou na premissa menor de que só os homens eram completamente livres, fumou o bagulho e concluiu que para ser completamente livre era preciso ser vulgar.
Foi o começo do fim, e é possível identificar uma linha não-evolutiva que começa em Gretchen e vai dar em Paris Hilton. É lamentável que até mesmo mulheres que em outras épocas seriam a encarnação do charme não consigam deixar de se contaminar pela vulgaridade do nosso tempo. Juliana Paes, por exemplo. Aliás, alguém é capaz de imaginar Audrey Hepburn, sem calcinha, se deixando fotografar enquanto rodopia, sorri e revela os pêlos pubianos? (Pensando bem, hmmm.)
Seria inegavelmente lindo, mas também o bastante para que ela deixasse de ser "Audrey Hepburn, the fairest lady", passasse a ser apenas "Audrey, aquela gostosa", e dali a pouco estivesse num concurso para eleição da nova morena do Tchan. Então tudo se tornaria cinza e certamente haveria três longos minutos de silêncio no Céu.

Adoro a forma como você escreve, saboreio cada frase. O que mais me surpreende é a forma como você termina seus textos, sempre com originalidade e estilo.
Comment by Thiago — November 18, 2006 @ 6:13 pm
Menina que fala palavrão é muito feio, se estiver vestida vulgarmente pior ainda…. o charme não tem nada a ver com exposição corporal, além de ser muito mais bonito
Comment by Gaspar — November 18, 2006 @ 7:45 pm
Ah, sobre a Scarlett, vá lendo este post, que em determinado momento tem um texto aí em inglês, pra você que só lê em inglês.
Beijo!
PS: este blogsome de uma figa está botando banca pra aceitar meus comments.
Comment by Gabriela — November 19, 2006 @ 1:17 am
Titi, nao captei oq vc quer entende por vulgar. Faça o favor de explicar, para eu me posicionar melhor.
Sobre os rodopios, não acho q eles diminuam a mulher. Sem teoria; sobre seu exemplo: juju é apenas gostosa, pq ela nunca fez nada na vida, apenas meia dúzia de novelas e 1 dúzia de propagandas e fotos eróticas.
Aliás, vc teria algo contra “Audrey Hepburn, the fairest and sexy lady” ?
Comment by André — November 20, 2006 @ 1:30 am
Bom, concordo, mas não sei se fazer fotos nua deixa a mulher vulgar. Já viu a Playboy de Maitê Proença, por Bob Wolfenson? Às vezes posar nua até deixa a mulher menos vulgar? Lembra da Tiazinha, andando com aquele corpete sem calcinha no meio da rua em alguma cidade estrangeira? Não achei aquilo vulgar.
Ainda assim, sinceramente, às vezes vulgaridade é interessante, se vem junto com uma certa inocência, ou displicência. O tipo de mulher meio liberada, que passa do quarto para a sala na frente dos primos pequenos, algo do tipo. Tem a ver com alguns papéis de Marilyn Monroe, ou, mais perto, da própria Juliana Paes, nos comerciais de cerveja. Ou ainda Sônia Braga, interpretando as mulheres de Jorge Amado - aquela cena de novela dos anos 70, ela, Gabriela subindo no telhado pra pegar pipa. Com sorte, Deborah Secco também acerta no alvo com essa vulgaridade do bem, como em Meu Tio Matou um Cara. Não sei se isso é exatamente vulgaridade, mas, tô só pensando alto.
Mas vc tem razão. Difícil ver mulher falando palavrão alto em situações que nada tem a ver com sexo.
Comment by Saymon Nascimento — November 20, 2006 @ 2:45 am
Não sei o que há com essas pessoas que ficam discordando, discordando, discordando… Vulgaridade é feio, é, bem, é vulgar. E não é exatamente um elogio deixar de ser “the fairest lady” pra ser “gostosona do bundão, uhul”.
Prefiro que ela fique bem vestida em público.
P.s.: Que tal nos mudarmos pra década de 50?
Comment by Gustavo — November 20, 2006 @ 11:41 am
Pelo amor de Deus não, década de 50 não.
Casada com seis filhos de um homem careca? Sem aparelho pra corrigir os dentes? Sem CD’s de música clássica? Sem anestesias confiáveis? Sem universidade?
Comment by Carla — November 20, 2006 @ 12:26 pm
Sabia que esse post ia dar o que falar. Mas sem dúvida foi um dos melhores. Tanto no estillo quanto no assunto.
: )
Comment by Carla — November 20, 2006 @ 12:27 pm
a carla se enganou e botou uma interrogação em vez duma exclamação depois de “universidade”.
Comment by rodrigo de lemos — November 20, 2006 @ 1:07 pm
Pô, Thiago, brigado, que bom que gostou.
Também acho, Gaspar.
Ô, Gabi, fala assim do blogsome não, ele é gente boa. Eu li o tal post, mas sua colega esqueceu de dizer que quem escreveu aquele absurdo foi Joe Queenan. Me deu vontade de xingá-lo, mas, hélas, ele já se definiu a full-time son of a bitch, clica.
André, vulgar é tipo assim, por exemplo, aquela Juliana lá da faculdade. E longe de mim ter algo contra AH.
Saymon, você ainda tem essa revista de Maitê? Queria ler a entrevista dessa edição, que foi com, er, como é mesmo o nome daquele cara?
Gustavo, seja benvindo, também não sei por que as pessoas gostam tanto de discordar, falta de educação isso.
Carlinha, valeu, mas o que você tem contra os carecas?
Boa, Rodrigo.
Abraços. =)
Comment by tiago a. — November 20, 2006 @ 10:44 pm
Rapaz, a entrevista foi com Xuxa. Tenho a Playboy especial entrevistas, dos 30 anos, e essa entrevista foi selecionada. Não tenho a da Maitê (essa foi a segunda). Vi no barbeiro. Se não me engano, vc tem era do CPM, e sabe que a revista acontece de 15 em 15 dias.
Comment by Saymon Nascimento — November 21, 2006 @ 2:51 am
Bendizemos nessa hora o nosso fardo.
Comment by tiago a. — November 21, 2006 @ 4:42 pm
Por falar na nossa amiga Audrey, dá uma olhada: A moda da diva - Considerada por muitos a mais elegante das musas de Hollywood, Audrey Hepburn está na moda novamente..
Comment by Gabriela — November 22, 2006 @ 10:54 am
Hoje é aniversário de Scarlett Johansson.
Comment by Saymon Nascimento — November 23, 2006 @ 1:18 am
Gabi, veja só, no fim do texto tinha essa citação de uma tal de Regina Martelli, que eu não faço idéia de quem seja, mas que parece ser bastante sábia:
“Sensualidade e elegância podem andar juntas, mas tudo é questão de bom gosto. O que é óbvio e escancarado demais cansa. E ninguém agüenta mais a vulgaridade que anda orientando a moda.”
Saymon, tá explicado porque o dia foi tão bonito.
Comment by tiago a. — November 23, 2006 @ 1:42 am
A unica parte que me parece absurda é se senitr ofendido por ” ouvir uma menina feia e descabelada correndo e berrando ME F*DI, ME F*DI pelos corredores de uma universidade pública numa manhã de quarta-feira.” Considero a cena impagável. Aliás, mais impagável ainda seria se ela erguesse a cabeça, olhasse um ponto fixo no horizonte e, com a creul expressão dos guerreiros bárbaros na face, gritasse: Capitãaaaaao caverna!
Comment by Antonio Rimaci — November 24, 2006 @ 1:47 am
Que mulher idealizada é essa, meu Deus? Eu que me sentia feliz por me achar vulgar e singular!… ;)
Beijo!
Sempre bom texto, né?…
Comment by Biazinha — November 24, 2006 @ 3:18 am