as mulheres do meu tempo

November 18, 2006
Ainda não me conformei com o infortúnio de ter nascido na era da vulgaridade e de, portanto, ser obrigado a conviver com suas mulheres. Garanto que poucas experiências podem ser tão desagradáveis quanto ver e ouvir uma menina feia e descabelada correndo e berrando ME F*DI, ME F*DI pelos corredores de uma universidade pública numa manhã de quarta-feira.
 
É bem famosa a tese de que até a revolução feminista (sic) se negava à mulher o direito de projetar seu intelecto além do necessário ao cumprimento das atividades domésticas, mas por causa de Jane Austen eu me recuso a acreditar nisso. Por outro lado, não posso negar alguma razão a quem defenda essa tese, principalmente quando confiro o que a História tem a nos dizer sobre o porquê de minha vizinha insistir em usar roupas de lycra sabidamente moldadas para corpos menores que o dela.
 
Depoimentos academicamente confiáveis informam que tudo se passou numa daquelas viagens de kombi ao litoral paulista tão comuns na fatídica década de 70. Todo mundo sabe que as mulheres daquela geração, quando não estavam sob o efeito de cogumelos alucinógenos, só conseguiam pensar por meio de silogismos - uma característica das mentes inferiores - e isto se dava porque elas eram burrinhas mesmo. Conta-se que uma das ripongas tomou a premissa maior de que os homens eram vulgares, enrolou na premissa menor de que só os homens eram completamente livres, fumou o bagulho e concluiu que para ser completamente livre era preciso ser vulgar.
 
Foi o começo do fim, e é possível identificar uma linha não-evolutiva que começa em Gretchen e vai dar em Paris Hilton. É lamentável que até mesmo mulheres que em outras épocas seriam a encarnação do charme não consigam deixar de se contaminar pela vulgaridade do nosso tempo. Juliana Paes, por exemplo. Aliás, alguém é capaz de imaginar Audrey Hepburn, sem calcinha, se deixando fotografar enquanto rodopia, sorri e revela os pêlos pubianos? (Pensando bem, hmmm.)
 
Seria inegavelmente lindo, mas também o bastante para que ela deixasse de ser "Audrey Hepburn, the fairest lady", passasse a ser  apenas "Audrey, aquela gostosa", e dali a pouco estivesse num concurso para eleição da nova morena do Tchan. Então tudo se tornaria cinza e certamente haveria três longos minutos de silêncio no Céu.