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October 23, 2006

Quando acordei terça-feira passada, meus pés estavam verdes. Fui ter com um médico, que viu ali um quadro sintomático de procrastinação, dianóstico que muito me assustou; de repente me veio um medo da morte, e eu resolvi parar de ler bons blogs como esse e iniciar de uma vez o trabalho - fonte 12, Times News Roman, 20 páginas no mínimo - sobre a literatura contemporânea da Namíbia.

(OK. Eu sei que você também não acredita que alguém possa fazer um trabalho sobre a literatura contemporânea da Namíbia, mas concentre-se na imagem, é o que importa, porque todo trabalho acadêmico é tão chato e inútil quanto.)

A primeira coisa que a gente faz quando descobre que está doente é consultar a literatura médica disponível a respeito de nosso mal - na Wikipedia, evidentemente. Foi lá que descobri, dentre outras coisas, que na maior parte dos casos os procrastinadores são perfeccionistas que evitam começar uma tarefa porque acham que não vão ser excelentes. Verdade, verdade. Este post, por exemplo, eu adiei enquanto pude até que os já irrisórios page views do blog começassem a beirar o zero absoluto, o que sempre me deprime enormemente: eu choro muito quando descubro que a única visita do dia chegou aqui em busca do novo cd de Pedro e Thiago e nem escrever Pedro ela sabe.

Uma das características do procrastinador é retardar o início de uma tarefa até um momento crítico, quando já não lhe reste alternativa senão começar o maldito trabalho sobre a literatura contemporânea da Namíbia. Então, aquele que almejava a perfeição, a excelência, pare (do verbo parir) uma mediocridade que só traz infelicidade - e uma rima pobre. O resultado quase sempre sofrível faz o procrastinador crer que ele não é suficientemente bom, e, assim, quando se vir diante da próxima tarefa, o perfeccionista enfermo, acreditando não estar apto para cumpri-la com excelência, vai, voilà, outra vez procrastinar, produzindo mais uma rima ridícula.

O médico não receitou nada além de vergonha na cara e se recusou a me fornecer um atestado. Fiquei me perguntando de que vale uma moléstia da qual só se colhe os ônus e que não dá direito sequer a um auxílio-doença do INSS, mas não encontrei resposta alguma, e meus pés continuam assombrosamente verdes.