Devem ser solitários, os radialistas esportivos. Difícil encontrar gente para conversar quando você tem que falar rápido daquele jeito e ainda intercalar as frases com anúncios de Pitú, mania de brasileiro.
Agora há pouco, fui vítima de um que tentou puxar assunto na fila do banco: perguntou as horas (Três e meia já?), falou do tempo (Que calor é esse, rapaz?), elogiou o livro que eu estava lendo (Alemão? Gente, que chique!), xingou Lula (Aquele ladrão, safado!), reclamou da demora (Ô, essa fila não anda não?) e narrou um atropelamento (E tá lá um corpo estendido no chão!), tudo isso em irrespiráveis 29 segundos. Eu, claro, só podia balançar a cabeça (hum-hum, hum-hum) enquanto rezava silenciosamente para que ele calasse, pelo amor de Deus, o diabo daquela boca - o que, obviamente, não aconteceu.
O episódio me lembrou uma outra espécie de gente, talvez mais solitária ainda, porque mais chata: os blogueiros que escrevem períodos longuíssimos, cheios de palavras inúteis e expressões vazias, clichê atrás de clichê, jargão atrás de jargão, sobre os mais desinteressantes assuntos - do aquecimento global ao papel da mulher no século XXI, da arte de vanguarda ao outro mundo possível, da questão palestina ao disco ou livro novo de Chico Buarque - sempre e sempre e sempre arrumando uma maneira de estender as frases indefinidamente, com digressões inesperadas, parêntesis infinitos e lembranças inoportunas, verdadeiros mestres na arte de fingir que vão enfim concluir a oração e dar ao leitor a já tão aguardada pausa para recobrar o fôlego, apenas para terem o cruel prazer de vê-lo desiludido e triste diante de mais um de modo que. Perdão, perdão, foi só um exemplo. Pode respirar agora.
Adoro quando você termina frases com “de modo que”.
Admito que não sei usar essa construção.
:*
Comment by Carla — October 5, 2006 @ 3:08 pm
Por fazer parte do grupo mencionado, qual seja, dos bloqueiros, senti-me na obrigação de protestar acerca do comentário, na minha opinião, preconceituoso e descabido. Não é verdade que todos os blogueiros criem períodos longos, com palavras inúteis e expressões vazias, até porque, pensemos aqui de forma filosófico-literária, qual palavra é inútil? Não seriam todas as palavras igualmente úteis, em sua função de elo entre o emissor e o receptor? Certo que, com o advento das novas tecnologias, o vídeo tem dispensado as palavras. Mas num país de terceiro mundo, onde tantas pessoas não tem acesso a uma web cam, vez que isso não parece ser prioridade do governo como meio de inclusão digital, a palavra escrita ainda é fundamental, de modo que, não há que se falar em palavras inúteis.
Comment by Djaman — October 7, 2006 @ 2:13 pm
Ô meu Deus…a galera leva ao pé da letra!!! não sejamos inocentes! (sem querer ofender ninguém, tá?)quanto mais a galera leva a sério determinados posts, mais eu me divirto…rsrsrs, é igual a ver um crente que fala da bíblia de modo literal…divertidíssimo, devia escrever um pouco sobre isso, bjos
ou também sobre pessoas entrometidas que te dizem vez ou outra sobre o que deveria escrever, rsrsrsrsrrs bjos dobrados
Comment by uma menina... :) — October 7, 2006 @ 3:17 pm
Ah, Carla, sabe sim. Hey, Djaman, ri muito aqui, mas parece que “uma menina… :)” não entendeu a ironia, finíssima, da boa. Tudo bem com vocês?
Comment by tiago a. — October 8, 2006 @ 11:40 pm
Muito bom o blog! Bem-humorado, irônico e, prinicipalmente, bem pontuado. Já havia estado aqui, mas só agora resolvi deixar um comentário. Retornarei mais vezes.
Comment by Pondé — October 10, 2006 @ 3:30 am
http://dendeenoticias.blogspot.com/
Segue meu endereço de blog
Comment by Pondé — October 10, 2006 @ 3:37 am
Sei nada, rapaz, to dizendo. Terminar a frase com “de modo que” é impossível pro meu cérebro.
E tudo bem obrigada, e você?
beijo!
Comment by Carla — October 11, 2006 @ 1:21 am
Eu tinha feito outro comentário aqui… ou não?
Comment by Djaman — October 14, 2006 @ 1:05 pm