adolescência tardia

October 29, 2006
 
No século XIX, as pessoas da sua idade já eram adultas porque morriam de tuberculose antes de completarem 40 anos. Até o fim da primeira metade do século passado, as pessoas na sua idade também já eram adultas e iam pra guerra e tinham 10 filhos. Nós, com a expectativa de viver 70, 80 anos, vemos nisso um salvo-conduto para continuar adolescentes indefinidamente, aos 26 anos e ainda recebendo mesada dos pais. Mas quem suporta adolescentes? O mundo ficaria melhor se resolvêssemos crescer, é o que diz Michael Bywater, com humour, num trecho de "Big Babies" (no prelo) que o Telegraph publicou:

I imagine myself to be a grown-up, as, presumably, do you. You think that because you negotiated puberty and developed secondary sexual characteristics, and got qualifications and opened a bank account and subjected yourself to the scrutiny of anti-terrorism laws and anti-money-laundering laws and learned to drive and got a job and perhaps a spouse and maybe children, and quite possibly even pay your taxes, you are a grown-up.

Sometimes, things strike you as a bit odd. It strikes you, for example, as out of kilter that between getting off the plane and reaching the outside world at London Heathrow there were, at last count, 93 notices telling you off for things you hadn’t done or which it hadn’t even occurred to you to do.

The plain fact is that you are being treated like a baby. You, I, all of us are on the receiving end of a sustained campaign to infantilise us: our tastes, our responses, our behaviour, our private thoughts, our decisions, our buying habits, our philosophies, our political sensibilities. (continua)

(Via Galera)

não teve chuva pra desintegrar

October 28, 2006
 
"Rapaz, como disse, é uma leitura sofrida, difícil, e nada prazerosa. Ainda assim, tem algum mistério naquela solenidade toda que empurra a leitura pra frente. Talvez seja por ele deixar claro que está lidando com uma grande tragédia, e por a gente saber (como na época do lançamento) que o final é um desatre mesmo. Parece tragédia de teatro. Acho que por isso, gosto da estrutura. O livro acabou me conquistando ainda na ‘Terra’. Ele está lá descrevendo o ambiente, aí chega ao chão, ao solo, a um pedaço de carne. É um cadáver de 3 meses, murcho. Não teve chuva pra desintegrar. Fui assim, garimpando o livro, pra ir, cada vez mais, me defrontando com essa violência extrema. O estranho é justamente isso - a hostilidade humana cresce, mas a violência parece pairar o tempo todo, no clima, no sol, nas rochas das montanhas, desagradavelmente. É um livro difícil, mas a minha impressão final é a de uma obra realmente monumental. Ainda assim, preciso de uns bons 10 anos pra reler."
 
Saymon fala no meu scrapbook sobre Os Sertões, que ele leu e gostou. 

ufa, sou normal

October 26, 2006

José Mindlin: "Então vieram minhas leituras durante as aulas, na faculdade. Era uma época em que os professores liam as suas preleções com uma voz monótona, quase parecida com a minha, agora. Eles liam em 50 minutos o que eu, em casa, lia em 15, com a apostila. Então, eu sentava no fundo da sala e ficava lendo outras obras. Li mais coisas literárias na Faculdade de Direito do que jurídicas."

com Nabokov

October 25, 2006

Certa vez perguntaram a Nabokov para quem ele escrevia, para qual público. Ele respondeu algo parecido com isso: "Não acho que um artista deva se importar com seu público. Seu melhor público é a pessoa que ele vê no espelho em frente ao qual se barbeia toda manhã. Eu acho que o público que um artista imagina, quando imagina esse tipo de coisa, é uma sala repleta de gente portando a máscara dele mesmo."

Quando soube disso, perguntei-lhe por que, donc, ele não criava um blog, seguindo o exemplo de seu filho. Citando Pushkin, ele sorriu e respondeu: "Eu escrevo pelo prazer, mas publico pelo dinheiro."

sub

October 23, 2006

Quando acordei terça-feira passada, meus pés estavam verdes. Fui ter com um médico, que viu ali um quadro sintomático de procrastinação, dianóstico que muito me assustou; de repente me veio um medo da morte, e eu resolvi parar de ler bons blogs como esse e iniciar de uma vez o trabalho - fonte 12, Times News Roman, 20 páginas no mínimo - sobre a literatura contemporânea da Namíbia.

(OK. Eu sei que você também não acredita que alguém possa fazer um trabalho sobre a literatura contemporânea da Namíbia, mas concentre-se na imagem, é o que importa, porque todo trabalho acadêmico é tão chato e inútil quanto.)

A primeira coisa que a gente faz quando descobre que está doente é consultar a literatura médica disponível a respeito de nosso mal - na Wikipedia, evidentemente. Foi lá que descobri, dentre outras coisas, que na maior parte dos casos os procrastinadores são perfeccionistas que evitam começar uma tarefa porque acham que não vão ser excelentes. Verdade, verdade. Este post, por exemplo, eu adiei enquanto pude até que os já irrisórios page views do blog começassem a beirar o zero absoluto, o que sempre me deprime enormemente: eu choro muito quando descubro que a única visita do dia chegou aqui em busca do novo cd de Pedro e Thiago e nem escrever Pedro ela sabe.

Uma das características do procrastinador é retardar o início de uma tarefa até um momento crítico, quando já não lhe reste alternativa senão começar o maldito trabalho sobre a literatura contemporânea da Namíbia. Então, aquele que almejava a perfeição, a excelência, pare (do verbo parir) uma mediocridade que só traz infelicidade - e uma rima pobre. O resultado quase sempre sofrível faz o procrastinador crer que ele não é suficientemente bom, e, assim, quando se vir diante da próxima tarefa, o perfeccionista enfermo, acreditando não estar apto para cumpri-la com excelência, vai, voilà, outra vez procrastinar, produzindo mais uma rima ridícula.

O médico não receitou nada além de vergonha na cara e se recusou a me fornecer um atestado. Fiquei me perguntando de que vale uma moléstia da qual só se colhe os ônus e que não dá direito sequer a um auxílio-doença do INSS, mas não encontrei resposta alguma, e meus pés continuam assombrosamente verdes.

tamarindo azul

October 17, 2006
 
Alguém sabe o nome que se dá àquele conflito entre o que você é, o que você pensa que é, o que você pensa que os outros pensam que você é e o que os outros realmente pensam que você é? Queria ler a respeito. Links seriam benvindos.

¬¬

October 15, 2006
 
(Eu sei que ser repetitivo como eu serei não é esteticamente recomendável, mas deixa. Estou com muito sono pra ser belo. (Jesus, que post é esse que inicia com parêntesis dentro de parêntesis? Credo.)) Desprezo - pigarreio gravemente, aguardando silêncio - não combina com expansão. Você tem certeza de que um determinado sujeito não é um cavalheiro quando o grosseirão gargalha de desprezo HUAHUAHAUHAUAHUA enquanto estapeia a própria coxa. Nenhum homem de bem gargalha de desprezo, só os rudes, repare (e, ato contínuo, despreze-os). Os gregos já diziam, e, se não disseram, deveriam ter dito, que a forma mais elevada de se desprezar algo é também a mais sutil, de maneira que quem sente desprezo pela opinião de alguém deve, quando muito, esboçá-lo num levíssimo sorriso, jamais permitindo que o objeto de desprezo perceba que está sendo desprezado. Vale pro MSN.

sexiest woman alive

October 13, 2006

Desde junho, mês a mês, a Esquire publicava perguntas feitas à sexiest woman alive 2006 para que os leitores tentassem adivinhar quem era a deusa da vez. No total, teriam sido 100 respostas, se ela não tivesse deixado de responder a questões como "Book you’d take to a desert island?" e "How to Survive on a Desert Island." Seguem os pontos altos e os (poucos) pontos baixos:

pontos altos

Are you animal, vegetable, or mineral?
Mostly mineral.

Are you an athlete?
Yes. If you consider sleeping eleven hours athletic.

Do you have a blog?
No.

Older men or younger men?
Just men in general. That’s my preference.

The superhero you most identify with?
SpongeBob SquarePants.

Favorite word?
Tapioca. 

Are you Renée Zellweger?
Maybe. Sometimes late at night. Depends how dark it is.

Guiltiest pleasure?
Why do they have to be guilty?

Worst pickup line you’ve heard?
"Do you want a kiss?" It was so shocking to me. I said something like, "Excuse me, asshole?" Then he handed me a Baci candy. He was Italian.

If they made a movie of your life, who would play you?
Woody Allen. 

pontos baixos

Are you righty or lefty?
Lefty.

Newspaper of choice?
The New York Times

Favorite foreign country?
Jamaica.

—– 

Er, pelo visto, ninguém é perfeito. Mas que ela chegou perto, chegou:

Há mais aqui.

10 videos

October 11, 2006
 
Todo mundo já sabe que o Google pagou aos two so-called kings um bilhão seiscentos e cinqüenta milhões de dólares - $ 1.650.000.000 - pelo brinquedinho. Vamos, pois, ver vídeos.
 
Qu’est-ce qui gravite autour de la Terre? - a superioridade intelectual do povo francês. Sinatra fuma e canta "I Get a Kick Out of You" - repare no pigarro. Devendra Banhart canta "Summertime", dos irmãos Gershwin - repare na performance do doidão. Fucking Joe fucking Pesci in fucking Casino -  what the fuck? Scarlett Johansson vai extrair o wisdom tooth - tadinha. Kazuhito Yamashita e seu violão versus João Gilberto sem violão. Rodrigo Amarante, dos Loser Manos, humilha jornalista imbecil - "Eu acho que você leu pouco." E, por fim, Silent Library.

Evita barbuda x picolé de chuchu

October 5, 2006
 
If Alckmin is a tasteless vegetable on a stick, Lula is a bearded Evita, says The Economist. (via Márcio Guilherme)

de radialistas e blogueiros

October 4, 2006

Devem ser solitários, os radialistas esportivos. Difícil encontrar gente para conversar quando você tem que falar rápido daquele jeito e ainda intercalar as frases com anúncios de Pitú, mania de brasileiro.

Agora há pouco, fui vítima de um que tentou puxar assunto na fila do banco: perguntou as horas (Três e meia já?), falou do tempo (Que calor é esse, rapaz?), elogiou o livro que eu estava lendo (Alemão? Gente, que chique!), xingou Lula (Aquele ladrão, safado!), reclamou da demora (Ô, essa fila não anda não?) e narrou um atropelamento (E tá lá um corpo estendido no chão!), tudo isso em irrespiráveis 29 segundos. Eu, claro, só podia balançar a cabeça (hum-hum, hum-hum) enquanto rezava silenciosamente para que ele calasse, pelo amor de Deus, o diabo daquela boca - o que, obviamente, não aconteceu.

O episódio me lembrou uma outra espécie de gente, talvez mais solitária ainda, porque mais chata: os blogueiros que escrevem períodos longuíssimos, cheios de palavras inúteis e expressões vazias, clichê atrás de clichê, jargão atrás de jargão, sobre os mais desinteressantes assuntos - do aquecimento global ao papel da mulher no século XXI, da arte de vanguarda ao outro mundo possível, da questão palestina ao disco ou livro novo de Chico Buarque - sempre e sempre e sempre arrumando uma maneira de estender as frases indefinidamente, com digressões inesperadas, parêntesis infinitos e lembranças inoportunas, verdadeiros mestres na arte de fingir que vão enfim concluir a oração e dar ao leitor a já tão aguardada pausa para recobrar o fôlego, apenas para terem o cruel prazer de vê-lo desiludido e triste diante de mais um de modo que. Perdão, perdão, foi só um exemplo. Pode respirar agora.