Kelly
Apesar do nome, era lindíssima, e eu lembro com nitidez o dia em que a vi pela primeira vez, no pátio da escola, balançando soberanamente os cabelos presos num rabo de cavalo que revelava a penugem aloirada de sua nuca. Antes de sua aparição, eu era apenas mais um aluno inocente da 4ª série da Escola Menino Jesus de Praga a ignorar completamente onde ficava a Checoslováquia; depois daquele dia, passei a conviver com esta perplexidade que nos assalta toda vez que estamos diante de mulheres muito belas.
Creio que ela jamais notou a minha existência, nem o modo como eu a olhava na hora do recreio enquanto simulava concentração no jogo de bolas de gude. Vestia shorts jeans que lhe cobriam apenas metade das coxas e mantinham-se justos a sua cintura graças a um cinto singelamente enfeitado por figuras que já não consigo enxergar neste olhar retrospectivo, mas cujas cores ainda criam uma aquarela sem forma definida que vez por outra vem ornar meus sonhos.
Ela era um pouco mais alta que eu, o que só reforçava a sensação de inferioridade que me acometia toda vez que ensaiava me aproximar dela para perguntar a grafia correta de seu nome (e eu mudava de idéia no meio do caminho, parava e fingia amarrar os cadarços encardidos do meu Bical). Sem saber como escrevê-lo, jamais pude lhe entregar a carta em que confessava meu amor silencioso e que iniciava com as palavras "Minha querida e doce_______". Hoje, quando penso ter finalmente aprendido, é triste, K-e-l-l-y, que você não esteja entre os gentis leitores deste post que se tornou, portanto, ainda mais inútil.

Ai, Ti, que fofo!… Adorei… Muito sensível… Saiba que se ela estiver entre os leitores do teu blog ela se sentirá lisonjeada, no mínimo… ;)
O amor é sempre ventrículos e metáforas, não importa a idade da gente, né? Beijo! :*
Comment by Biazinha — September 30, 2006 @ 3:56 pm
que gracinha!
Comment by Carla — September 30, 2006 @ 11:38 pm
Realmente bonito. O tipo de romantismo que me agrada.
Comment by Felippe — October 1, 2006 @ 3:19 pm
De fato “O tipo de romantismo que me agrada” (Ramos). Conforme obtempera a ilustre leitora Biazinha: ” que fofo!…Adorei…”.
Ver também Bauman, 2001 e no mesmo sentido STF – PET n.º 2.131-2 – rel. Min. Celso de Mello – j. 13.10.2000 – DJU de 20.10.2000 – n.º 203-E – p. 131
Comment by Pedro A. — October 1, 2006 @ 5:34 pm
… caraca, totalmente demais!!!
(: legal o jeito que você descreveu tudo, ao mesmo tempo que pude imaginar, juntei suas lembranças com as minhas.
juliana era um nome bem mais fácil de se escrever, mas sabe, nunca fui bom com cartas.
Comment by Thiago D, — October 2, 2006 @ 1:21 am
Você ficava olhando a metade das coxas expostas dela e ainda se descreve como “aluno inocente”?
Comment by Ricardo S. A. — October 2, 2006 @ 10:25 pm
Mas, pra manter o protocolo: “Uma uva esse texto….”
Comment by Ricardo S. A. — October 2, 2006 @ 10:26 pm