Kelly

September 30, 2006

Apesar do nome, era lindíssima, e eu lembro com nitidez o dia em que a vi pela primeira vez, no pátio da escola, balançando soberanamente os cabelos presos num rabo de cavalo que revelava a penugem aloirada de sua nuca. Antes de sua aparição, eu era apenas mais um aluno inocente da 4ª série da Escola Menino Jesus de Praga a ignorar completamente onde ficava a Checoslováquia; depois daquele dia, passei a conviver com esta perplexidade que nos assalta toda vez que estamos diante de mulheres muito belas.

Creio que ela jamais notou a minha existência, nem o modo como eu a olhava na hora do recreio enquanto simulava concentração no jogo de bolas de gude. Vestia shorts jeans que lhe cobriam apenas metade das coxas e mantinham-se justos a sua cintura graças a um cinto singelamente enfeitado por figuras que já não consigo enxergar neste olhar retrospectivo, mas cujas cores ainda criam uma aquarela sem forma definida que vez por outra vem ornar meus sonhos.

Ela era um pouco mais alta que eu, o que só reforçava a sensação de inferioridade que me acometia toda vez que ensaiava me aproximar dela para perguntar a grafia correta de seu nome (e eu mudava de idéia no meio do caminho, parava e fingia amarrar os cadarços encardidos do meu Bical). Sem saber como escrevê-lo, jamais pude lhe entregar a carta em que confessava meu amor silencioso e que iniciava com as palavras "Minha querida e doce_______". Hoje, quando penso ter finalmente aprendido, é triste, K-e-l-l-y, que você não esteja entre os gentis leitores deste post que se tornou, portanto, ainda mais inútil.