agora, brasileiro, você ri
A exposição contínua a programas do tipo "A Praça É Nossa", "Zorra Total" e "Fantástico" anulou para todo o sempre qualquer tentativa de desenvolver algum senso de humor num brasileiro médio. Experimente mostrar a um deles qualquer coisa verdadeiramente bem-humorada e verá que ele permanece estático, piscando apaticamente os olhos cheios de remela, até que uma placa seja erguida ao fundo e nela se enxergue o comando RIA.
A coisa fica ainda pior se você quiser indicar um livre d’humour para ele. Brasileiros são pessoas que acham que o verbo "ler" é uma corruptela da expressão "ler coisas chatas". Eu bem sei que você também já foi vítima do olhar de censura de um quando ele reparou que o livro que você estava lendo não era nem de auto-ajuda, nem do tipo que nos faz "avançar na carreira". Se você, ainda por cima, teve o atrevimento de rir, certamente também pôde contemplar aquele rosto quase verde-amarelo de espanto, incrédulo por haver encontrado alguém rindo de algo que, meu Deus, pensou ele, nem figuras tem. Não adianta negar, eu sei que isto também já aconteceu com você. Afinal, quem nunca teve a oportunidade de rir enquanto lia um bom livro num local que seria até agradável não fosse o brasileiro sentado ao seu lado?
Machado de Assis, poucos sabem, só foi quem foi porque todas as manhãs, ao sair do Cosme Velho, repetia para si mesmo "je suis pas brésilien, je suis pas brésilien". É realmente uma pena que seus biógrafos ainda façam de tudo para esconder este fato.
