do dia em que me apaixonei pela crítica

September 8, 2006

(inspirado no excelente ensaio de Alexandre na Bravo! desse mês)

A melhor opinião a respeito de qualquer assunto é a idiossincrática. Se lhe perguntam o que você achou de um filme, evite, pelo amor de Deus, os termos "comercial", "derivativo", "pulsante". Limite-se a dizer se gostou ou não, se é bom ou não, se dormiu durante a exibição ou não. É isso o que eu quero saber. É isso o que qualquer pessoa normal, que nunca tenha lido Haroldo de Campos, quer saber.

Juro, se for preciso jurar, que eu não estou nem um pouco interessado no fato de a atuação do ator José da Silva Smith ter sido, digamos, avassaladora. E lhe dou um exemplo de uma boa crítica.

Conheço uma garota a quem perguntei certa vez o porquê de ela gostar tanto de Philip Roth. Ela respondeu que gostava porque era bom. Não satisfeito, perguntei por que era bom. Ela, então, rindo o sorriso dos sábios, disse que era bom porque ela gostava.

É verdade que, à exceção de uma tarde numa livraria em que passei os olhos sobre umas 50 páginas de Portnoy’s Complaint, eu ainda não li nada de Philip Roth e nem sei se algum dia o farei, mas desde então, insistentemente, peço a tal garota em casamento. (Eis a fonte da minha dor.) Como resposta tenho ouvido  todas as entonações possíveis das palavras "não", "jamais" e "nem morta", e esta lembrança triste, assim, no fim desse post, é suficiente para que lágrimas comecem a molhar a palidez de meu rosto. Snif, snif, desculpe.

6 comentários »

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  1. Não concordo totalmente. Desconfio de críticas objetivas, distanciadas, estilo código de barra: uma varredura que detecta qualidades e defeitos e dá o resultado em estrelinhas ou bola preta. Sim, críticas são pessoais. Ainda assim, isso não impede que um crítico fale da atuação avassaladora de Smith de uma maneira que, ao invés de pretender fechar a obra num julgamento empacotado, realce o entendimento do leitor, o ilumine… Já aconteceu comigo e provavelmente com você também, ter a perspectiva alterada por alguém falando sobre algum livro, filme, disco. Você sempre coloca links de gente falando sobre outras coisas. Prum crítico, o “gostei” e “não gostei”, não basta. O problema é que muita gente sai dessa análise sadia pra verborragia de “derivativos” e “pulsantes”. Boas críticas são econômicas, mas nem por isso são idiossincrasias e mais nada.

    Err, eu acho.

    Comment by Saymon Nascimento — September 10, 2006 @ 9:09 pm

  2. Na verdade, acho que você não estava falando dos críticos, e sim das opiniões cotidianas. RESET. Mesmo assim, uma pessoa pode falar coisas interessantes além do “gostei”, mesmo que use esse tipo de termo escabroso.

    Comment by Saymon Nascimento — September 10, 2006 @ 9:13 pm

  3. é engraçado ver pessoas substituindo o “gostei” “não gostei” por coisas do tipo “não concordo totalmente”! rsrsrs
    e no meio de um monte de palavras que deveriam servir à comunicação alguns acabam não traduzindo realmente o que pensavam e ainda insistem em confundir “A Crítica” com uma coisa feita de pessoalidade chamada “A Opinião”.

    Comment by uma menina... :) — September 10, 2006 @ 10:23 pm

  4. Ô, Saymon, excelente seu comentário, melhor que o post, inclusive. É óbvio que você tem razão. Mas eu realmente prefiro quando as pessoas me dizem apenas se gostaram ou não, sério. Também não dá pra pedir que a crítica se comporte assim, é evidente. Mas poderiam pelo menos parar de falar “derivativo”. Lê o ensaio de Alexandre na Bravo, não esquece. Abraço.

    Comment by tiago a — September 11, 2006 @ 12:41 am

  5. Oi, menina. Eu mesmo percebi que tava falando sobre outra coisa, e fiz a correção, passei um RESET. E “crítica” e “opinião” no mesmo barco já era coisa do post original. Valeu, e valeu Tiago.

    Comment by Saymon Nascimento — September 11, 2006 @ 2:34 am

  6. T. S. Eliot, que de modo geral é meu guru para a crítica (e ele disse que “o único método é ser muito inteligente”), dizia que não é possível ensinar literatura a quem já não tem gosto formado. Por “gosto formado” entendo a capacidade de dizer para si mesmo as razões de gostar ou não de algo. Eu começo a gostar de Philip Roth, mas sou um leitor muito primitivo de prosa e não sei verbalizar ainda as tais razões.

    Comment by Pedro Sette Câmara — September 26, 2006 @ 1:22 am

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