Kelly

September 30, 2006

Apesar do nome, era lindíssima, e eu lembro com nitidez o dia em que a vi pela primeira vez, no pátio da escola, balançando soberanamente os cabelos presos num rabo de cavalo que revelava a penugem aloirada de sua nuca. Antes de sua aparição, eu era apenas mais um aluno inocente da 4ª série da Escola Menino Jesus de Praga a ignorar completamente onde ficava a Checoslováquia; depois daquele dia, passei a conviver com esta perplexidade que nos assalta toda vez que estamos diante de mulheres muito belas.

Creio que ela jamais notou a minha existência, nem o modo como eu a olhava na hora do recreio enquanto simulava concentração no jogo de bolas de gude. Vestia shorts jeans que lhe cobriam apenas metade das coxas e mantinham-se justos a sua cintura graças a um cinto singelamente enfeitado por figuras que já não consigo enxergar neste olhar retrospectivo, mas cujas cores ainda criam uma aquarela sem forma definida que vez por outra vem ornar meus sonhos.

Ela era um pouco mais alta que eu, o que só reforçava a sensação de inferioridade que me acometia toda vez que ensaiava me aproximar dela para perguntar a grafia correta de seu nome (e eu mudava de idéia no meio do caminho, parava e fingia amarrar os cadarços encardidos do meu Bical). Sem saber como escrevê-lo, jamais pude lhe entregar a carta em que confessava meu amor silencioso e que iniciava com as palavras "Minha querida e doce_______". Hoje, quando penso ter finalmente aprendido, é triste, K-e-l-l-y, que você não esteja entre os gentis leitores deste post que se tornou, portanto, ainda mais inútil.

por quê? por quê?

September 24, 2006

Aconteceu de novo. Estava trocando as cordas do meu alaúde há pouco, na sala, enquanto escutava uma atriz de novelas dizer na TV que os personagens do Sr. Manoel Carlos são bons porque são reais. O alaúde quase acompanhou meu queixo rumo ao chão, mas o golpe desta vez foi menor, e eu consegui evitar sua queda: acho que desenvolvi uma certa resistência desde a última vez. É claro que a platéia, melhor dizendo, o auditório, obedecendo às ordens da assistente de palco, aplaudiu efusivamente. Assovios e uh-uhs também foram ouvidos.

Não sei bem o porquê, mas eu fico muito triste quando vejo que ainda há quem creia que o maior elogio que pode ser feito a uma obra ficcional é dizer que ela se assemelha à realidade. Apesar de já não me deixar abalar como antes, não consigo segurar o choro toda vez que ouço coisa parecida. (Choro agora e aproveito para digitar este post com minhas lágrimas, me esforçando para que cada uma delas caia sobre a tecla correta.)

Como todo ser vertebrado, também não vejo novelas e me sinto um pouco aliviado de não saber quem é o Sr. Manoel Carlos. Tampouco me lembro se ele já me foi apresentado - queiram os céus que não. Mas se isto for verdade, Deus meu, se a principal virtude de seus personagens estiver no fato de eles serem reais, o Sr. Manoel Carlos está entre os maiores responsáveis pelo atraso desta nação e a partir de agora pode me considerar seu inimigo.

Porque aspiro à vida eterna e à salvação de minh’alma, torço para que aquelas pessoas não tenham entendido o que a atriz disse e que, ao aplaudir, tenham apenas respondido a um condicionamento, como ratos de laboratórios. É preferível pensar nelas como roedores a perder o pouco que restou da minha fé nos homens.

agora, brasileiro, você ri

September 18, 2006

A exposição contínua a programas do tipo "A Praça É Nossa", "Zorra Total" e "Fantástico" anulou para todo o sempre qualquer tentativa de desenvolver algum senso de humor num brasileiro médio. Experimente mostrar a um deles qualquer coisa verdadeiramente bem-humorada e verá que ele permanece estático, piscando apaticamente os olhos cheios de remela, até que uma placa seja erguida ao fundo e nela se enxergue o comando RIA.

A coisa fica ainda pior se você quiser indicar um livre d’humour para ele. Brasileiros são pessoas que acham que o verbo "ler" é uma corruptela da expressão "ler coisas chatas". Eu bem sei que você também já foi vítima do olhar de censura de um quando ele reparou que o livro que você estava lendo não era nem de auto-ajuda, nem do tipo que nos faz "avançar na carreira". Se você, ainda por cima, teve o atrevimento de rir, certamente também pôde contemplar aquele rosto quase verde-amarelo de espanto, incrédulo por haver encontrado alguém rindo de algo que, meu Deus, pensou ele, nem figuras tem. Não adianta negar, eu sei que isto também já aconteceu com você. Afinal, quem nunca teve a oportunidade de rir enquanto lia um bom livro num local que seria até agradável não fosse o brasileiro sentado ao seu lado?

Machado de Assis, poucos sabem, só foi quem foi porque todas as manhãs, ao sair do Cosme Velho, repetia para si mesmo "je suis pas brésilien, je suis pas brésilien". É realmente uma pena que seus biógrafos ainda façam de tudo para esconder este fato.

oh, rather

September 15, 2006
 
Um sujeito muito inteligente, cujo nome desgraçadamente não me ocorre agora, disse certa vez que inteligente é aquele que se mostra capaz de concordar com você. Nunca recebi elogio maior.

sai que é sua, Vlado

September 13, 2006
 
"Of the games I played at Cambridge, soccer has remained a wind-swept clearing in the middle of a rather muddled period. I was crazy about goal keeping. In Russia and the Latin contries, that gallant art had been always surrounded with a halo of singular glamour. Aloof, solitary, impassive, the crack goalie is followed in the streets by entranced small boys. He vies with the matador and the flying ace as an object of thrilled adulation. His sweater, his peaked cap, his kneeguards, the gloves protruding from the hip pocket of his shorts, set him apart from the rest of the team. He is the lone eagle, the man of mistery, the last defender. Photographers, reverently bending one knee, snap him in the act of making a spetacular dive across the goal mouth to deflect with his fingertips a low, lightning-like shot, and the stadium roars in approval as he remains for a moment or two lying full length where he fell, his goal still intact."
 
(Nabokov, in "Speak, Memory")

poesia numa hora dessas?

September 11, 2006

Bem, já que Monsieur Goiaba deu a deixa, aproveitemos:

Aubade

(Philip Larkin)

I work all day, and get half-drunk at night.
Waking at four to soundless dark, I stare.
In time the curtain-edges will grow light.
Till then I see what’s really always there:
Unresting death, a whole day nearer now,
Making all thought impossible but how
And where and when I shall myself die.
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.

The mind blanks at the glare. Not in remorse
- The good not done, the love not given, time
Torn off unused - nor wretchedly because
An only life can take so long to climb
Clear of its wrong beginnings, and may never;
But at the total emptiness for ever,
The sure extinction that we travel to
And shall be lost in always. Not to be here,
Not to be anywhere,
And soon; nothing more terrible, nothing more true.

This is a special way of being afraid
No trick dispels. Religion used to try,
That vast moth-eaten musical brocade
Created to pretend we never die,
And specious stuff that says No rational being
Can fear a thing it will not feel
, not seeing
That this is what we fear - no sight, no sound,
No touch or taste or smell, nothing to think with,
Nothing to love or link with,
The anaesthetic from which none come round.

And so it stays just on the edge of vision,
A small unfocused blur, a standing chill
That slows each impulse down to indecision.
Most things may never happen: this one will,
And realisation of it rages out
In furnace-fear when we are caught without
People or drink. Courage is no good:
It means not scaring others. Being brave
Lets no one off the grave.
Death is no different whined at than withstood.

Slowly light strengthens, and the room takes shape.
It stands plain as a wardrobe, what we know,
Have always known, know that we can’t escape,
Yet can’t accept. One side will have to go.
Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring
In locked-up offices, and all the uncaring
Intricate rented world begins to rouse.
The sky is white as clay, with no sun.
Work has to be done.
Postmen like doctors go from house to house.

(publicado pela primeira vez no TLS, em 1977, republicado em "Collected Poems 1938-83", 1988)

do dia em que me apaixonei pela crítica

September 8, 2006

(inspirado no excelente ensaio de Alexandre na Bravo! desse mês)

A melhor opinião a respeito de qualquer assunto é a idiossincrática. Se lhe perguntam o que você achou de um filme, evite, pelo amor de Deus, os termos "comercial", "derivativo", "pulsante". Limite-se a dizer se gostou ou não, se é bom ou não, se dormiu durante a exibição ou não. É isso o que eu quero saber. É isso o que qualquer pessoa normal, que nunca tenha lido Haroldo de Campos, quer saber.

Juro, se for preciso jurar, que eu não estou nem um pouco interessado no fato de a atuação do ator José da Silva Smith ter sido, digamos, avassaladora. E lhe dou um exemplo de uma boa crítica.

Conheço uma garota a quem perguntei certa vez o porquê de ela gostar tanto de Philip Roth. Ela respondeu que gostava porque era bom. Não satisfeito, perguntei por que era bom. Ela, então, rindo o sorriso dos sábios, disse que era bom porque ela gostava.

É verdade que, à exceção de uma tarde numa livraria em que passei os olhos sobre umas 50 páginas de Portnoy’s Complaint, eu ainda não li nada de Philip Roth e nem sei se algum dia o farei, mas desde então, insistentemente, peço a tal garota em casamento. (Eis a fonte da minha dor.) Como resposta tenho ouvido  todas as entonações possíveis das palavras "não", "jamais" e "nem morta", e esta lembrança triste, assim, no fim desse post, é suficiente para que lágrimas comecem a molhar a palidez de meu rosto. Snif, snif, desculpe.

Luís de Almeida Linhares, um sábio

September 3, 2006

Ele cursava a 4ª série quando, num dia ordinário de um maio mais ordinário ainda, encontrou, na porta do banheiro da escola, entre as pixações ha, ha, ha, eu estive aqui e Marcela do 3º C é gostosa, a frase que deu sentido a sua existência:

Só o sujeito vulgar se vangloria das coisas que fez; orgulhe-se daquilo que você não precisou fazer.

Convicto de que havia encontrado a fonte da sabedoria, deixou a vida acadêmica. Dali em diante, nas horas em que sua mãe lhe rogava para que voltasse a estudar (Menino, menino, vai estudar, menino, ô, meu Deus), ele se limitava a tomar mais um gole de Nescau, pôr a mão no bolso de seu roupão do Ursinho Pooh e declarar soberbamente:

- Um senso estético apurado, mamãe, tem certeza de que algo é ruim sem precisar experimentá-lo. Agora dá licença que eu quero ver o Chaves.

Durante a adolescência, Luís de Almeida Linhares vestiu camisetas Orgulho de Nunca Ter Lido Jorge Amado. Vive feliz até hoje, tem dois filhos e não está no orkut.