pom, pom, pom, bam, bam, bam
Morava naquela cidade um garoto chamado Jonas, que, em seu aniversário de doze anos, ganhara de seu pai um trombone. Adorou o presente. Imediatamente passou a soprá-lo sem que dele fosse capaz de extrair nada senão um som rouco, um mugido desafinado. Sua mãe, desesperada depois de semanas submetida àquele martírio, tentou convencê-lo a se matricular no conservatório municipal, mas Jonas, convencido de que era um talento nato, não lhe deu ouvidos e continuou com seu pom, pom, pom.
Proibido de ensaiar em casa, Jonas fez da praça da cidade seu palco, tirando o sossego daquelas paragens. As crianças choravam, os velhos bufavam, os pombos revoavam, as árvores não davam frutos. Pom, pom, pom. O tormento parecia não ter fim.
Num dia de outono, um forasteiro recém-chegado estranhou que não houvesse ninguém nas ruas (por causa do trombone de Jonas, as pessoas tinham renunciado à vida em sociedade e já não saiam de suas casas). Pom, pom, pom, era o único som que se ouvia, o que o irritava profundamente. Decidido a acabar com aquilo, ele chegou à praça, de onde o pom, pom, pom parecia vir. O forasteiro não era mesmo de muita conversa: uma vez descoberto o responsável por aquele inferno, tomou o instrumento das mãos de Jonas e com três golpes certeiros, bam, bam, bam, esmagou-lhe o crânio.
Fazia meses que aquela cidade não conhecia o silêncio. Instantes após o incidente, os habitantes começaram a sair de suas casas, ainda incrédulos, e encontraram o forasteiro fumando à sombra de uma árvore, o trombone ensangüentado a seus pés. Hurras e Vivas. Carregaram o herói nos braços e saíram em passeata pela cidade livre. Algumas semanas depois, substituíram a estátua da praça pelo busto do libertador.
Dizem que o mais perfeito instrumento musical é a voz humana, e também há quem diga que todos os demais não passam de um esforço para imitá-la. Quem não sabe cantar, e, não obstante, insiste em cantarolar, é uma espécie de Jonas. Eu conheço incontáveis Jonas. Talvez você seja um Jonas.
Às vezes, a paz social (i.e., a minha) depende apenas de um forasteiro que saiba dar nó em cordas vocais.

Ah, que susto.
Achei que o forasteiro fosse você.
Comment by Carla Patrícia — August 14, 2006 @ 10:47 am
Às vezes penso que sou um Jonas, mas, de qualquer forma, não nego a necessidade urgente de um forasteiro por estas paragens.
Comment by Felippe — August 14, 2006 @ 5:25 pm
Foi isso que aconteceu? Me disseram que umpeixe tinha comido ele…
Mas fiquei em dúvida sobre sua parábola: é uma indireta para nós blogueiros amadores? Vc vai hackear nossos sites e destruir tudo que escrevemos?
Comment by Djaman — August 14, 2006 @ 10:06 pm
isso bem que poderia acontecer - à vera - no passeio público, onde um persistente estudante de trumpete, há mais de 4 anos assassina a paz dos que vão até ali para descansar ou dos que esperam pacientemente que os amigos que são funcionários do Vila Velha larguem o expediente.
Comment by Marco — August 16, 2006 @ 10:29 pm
Tanta crueldade não pode ser direcionada aos que cantam mal…
Comment by Rio Vermelho — August 17, 2006 @ 5:18 pm
Carla, pudera eu ter o destemor. Felippe, somos dois. Pas du tout, Djaman. Marco, somos três então (eu, você e Felippe). Pode sim, Rio Vermelho, pode sim. Abraços e voltem sempre.
Comment by Tiago A. — August 18, 2006 @ 12:28 am