como se cercar de pessoas legais
he had already said it
regras para um jantar na pós-modernidade
Ao elaborar os convites, lembrar que na internet e alhures, onde quer que a palavra escrita impere, erros de ortografia depõem contra o caráter de quem os comete. Não convidar para um jantar quem não sabe escrever as palavras "seleção" e "ansiedade" - prova de que não sabem usar talheres.
Não incluir na lista de convidados os que se tratam por "querido", "fofa", "meu amor". Sempre chamar a pessoa pelo patronímico e, se dele não se lembrar, utilizar as expressões "meu distinto cavalheiro", "minha bondosa dama".
É imprescindível controlar os instintos homicidas e/ou suicidas, sobretudo se, à mesa, comensais vulgares se puserem a discutir semiologia. À semelhança do que já ocorre com outras graves e quejandas demonstrações de incivilidade, evitar qualquer debate sobre a referida matéria na vida social.
Quem considera a vaidade alheia insuportável reconhece tacitamente não ter muito do que se vangloriar. Nenhuma vaidade pode sobrepujar a sua. O sentimento que se deve ter com relação à vaidade das outras pessoas é o de condescendência frente a uma manifestação inferior.
Jamais discordar ou concordar sem fazer ressalvas. Sorrir enquanto xinga mentalmente.
sic
Sou assinante das revistas que costumo ler apenas para não ser obrigado a freqüentar bancas de revistas e, com isso, evitar o risco de dar de cara inadvertidamente com as medonhas capas de "Caros Amigos". Há dias como o de hoje, porém, em que a vontade de chupar balas de canela fala mais alto na vida de um homem.
O vendedor punha as guloseimas vermelhas num saco de papel, e eu fazia o impossível para não olhar em derredor até que, vindo não se sabe de onde, um busto seminu na capa de uma revista feminina se fixou em minhas retinas. Apesar do estado de quase vertigem, ainda encontrei forças para ler esta chamada em letras desavergonhadamente azuis (aqui e lá): 6 tipos de orgasmos i-nes-que-cí-veis: O ponto U, a zona AFE, e até o dos seios. Com passo-a-passo para você e ele. Assim, ipsis litteris, creiam-me.
(O ponto U. A zona AFE.)
Depois de pagar e pegar as balas, saí abraçado à satisfação de ter enfim encontrado o presente perfeito para quando quiser ofender de morte uma militante feminista.
pom, pom, pom, bam, bam, bam
Morava naquela cidade um garoto chamado Jonas, que, em seu aniversário de doze anos, ganhara de seu pai um trombone. Adorou o presente. Imediatamente passou a soprá-lo sem que dele fosse capaz de extrair nada senão um som rouco, um mugido desafinado. Sua mãe, desesperada depois de semanas submetida àquele martírio, tentou convencê-lo a se matricular no conservatório municipal, mas Jonas, convencido de que era um talento nato, não lhe deu ouvidos e continuou com seu pom, pom, pom.
Proibido de ensaiar em casa, Jonas fez da praça da cidade seu palco, tirando o sossego daquelas paragens. As crianças choravam, os velhos bufavam, os pombos revoavam, as árvores não davam frutos. Pom, pom, pom. O tormento parecia não ter fim.
Num dia de outono, um forasteiro recém-chegado estranhou que não houvesse ninguém nas ruas (por causa do trombone de Jonas, as pessoas tinham renunciado à vida em sociedade e já não saiam de suas casas). Pom, pom, pom, era o único som que se ouvia, o que o irritava profundamente. Decidido a acabar com aquilo, ele chegou à praça, de onde o pom, pom, pom parecia vir. O forasteiro não era mesmo de muita conversa: uma vez descoberto o responsável por aquele inferno, tomou o instrumento das mãos de Jonas e com três golpes certeiros, bam, bam, bam, esmagou-lhe o crânio.
Fazia meses que aquela cidade não conhecia o silêncio. Instantes após o incidente, os habitantes começaram a sair de suas casas, ainda incrédulos, e encontraram o forasteiro fumando à sombra de uma árvore, o trombone ensangüentado a seus pés. Hurras e Vivas. Carregaram o herói nos braços e saíram em passeata pela cidade livre. Algumas semanas depois, substituíram a estátua da praça pelo busto do libertador.
Dizem que o mais perfeito instrumento musical é a voz humana, e também há quem diga que todos os demais não passam de um esforço para imitá-la. Quem não sabe cantar, e, não obstante, insiste em cantarolar, é uma espécie de Jonas. Eu conheço incontáveis Jonas. Talvez você seja um Jonas.
Às vezes, a paz social (i.e., a minha) depende apenas de um forasteiro que saiba dar nó em cordas vocais.
na parte final do cap. 10
(…) We passed on to a small pantry and entered the dining room, parallel to the parlor we had already admired. I noticed a white sock on the floor. With a deprecatory grunt, Mrs. Haze stooped without stopping and threw it into a closet next to the pantry. We cursorily inspected a mahogany table with a fruit vase in the middle, containing nothing but the still glistening stone of one plum. I groped for the timetable I had in my pocket and surreptitiously fished it out to look as soon as possible for a train. I was still walking behind Mrs. Haze through the dining room when, beyond it, there came a sudden burst of greenery — "the piazza," sang out my leader, and then, without the least warning, a blue sea-wave swelled under my heart and, from a mat in a pool of sun, half-naked, kneeling, turning about on her knees, there was my Riviera love peering at me over dark glasses.
It was the same child — the same frail, honey-hued shoulders, the same silky supple bare back, the same chestnut head of hair. A polka-dotted black kerchief tied around her chest hid from my aging ape eyes, but not from the gaze of young memory, the juvenile breasts I had fondled one immortal day. And, as if I were the fairy-tale nurse of some little princess (lost, kidnaped, discovered in gypsy rags through which her nakedness smiled at the king and his hounds), I recognized the tiny dark-brown mole on her side. With awe and delight (the king crying for joy, the trumpets blaring, the nurse drunk) I saw again her lovely indrawn abdomen where my southbound mouth had briefly paused; and those puerile hips on which I had kissed the crenulated imprint left by the band of her shorts — that last mad immortal day behind the "Roches Roses." The twenty-five years I had lived since then, tapered to a palpitating point, and vanished.
I find it most difficult to express with adequate force that flash, that shiver, that impact of passionate recognition. In the course of the sun-shot moment that my glance slithered over the kneeling child (her eyes blinking over those stern dark spectacles — the little Herr Doktor who was to cure me of all my aches) while I passed by her in my adult disguise (a great big handsome hunk of movieland manhood), the vacuum of my soul managed to suck in every detail of her bright beauty, and these I checked against the features of my dead bride. A little later, of course, she, this nouvelle, this Lolita, my Lolita, was to eclipse completely her prototype. All I want to stress is that my discovery of her was a fatal consequence of that "princedom by the sea" in my tortured past. Everything between the two events was but a series of gropings and blunders, and false rudiments of joy. Everything they shared made one of them.
I have no illusions, however. My judges will regard all this as a piece of mummery on the part of a madman with a gross liking for the fruit vert. Au fond, ça m’est bien égal. All I now is that while the Haze woman and I went down the steps into the breathless garden, my knees were like reflections of knees in rippling water, and my lips were like sand, and —
"That was my Lo," she said, "and these are my lilies."
"Yes," I said, "yes. They are beautiful, beautiful, beautiful."
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À posteridade, a fim de que também eu jamais seja capaz de esquecer o dia em que finalmente a encontrei, na parte final do capítulo 10.
in-joke
meu cotovelo esquerdo me ama
cotovelo esquerdo de Tiago: Olá, Tiago.
Tiago: Olá, cotovelo, como tem passado?
cotovelo esquerdo de Tiago: (irritado) Ora, como tenho passado, da mesma maneira que você, afinal sou seu cotovelo. Você sabe que eu detesto essas perguntas que você faz sempre que quer conversar desde que se evitem os diálogos. Se eu lhe dissesse que tenho passado mal, você se limitaria a dizer "mas que pena" e…
Tiago: (interrompendo) Oh, perdão, nem havia me dado conta deste meu péssimo hábito. Deixemos isso pra lá, sim? Mas me diga: você viu o Caderno 2 hoje?
cotovelo esquerdo de Tiago: Só as palavras cruzadas. Por quê?
Tiago: Certamente você viu, então, que a peça (nome da peça) estréia hoje. A crítica elogiou muito. Estava pensando se não seria o caso de irmos juntos, prestigiarmos nosso teatro.
cotovelo esquerdo de Tiago: Ai, meu Deus, era só o que me faltava.
Tiago: Oh, a idéia não lhe agrada?
cotovelo esquerdo de Tiago: Teatro, pfui (cospe). O teatro acabou em Ésquilo.
Tiago: Você quer dizer o teatro começou em Ésquilo.
cotovelo esquerdo de Tiago: Não. Eu quero dizer o que eu disse. Também detesto sua mania de me dizer o que eu quis dizer.
Tiago: Oh, perdão.
cotovelo esquerdo de Tiago: (desdenhando) Perdão, perdão. Tudo é perdão, perdão.
Tiago: Oh, desculpa.
cotovelo esquerdo de Tiago: Ai, meu Deus. Bem, como eu dizia, teatro não é um bom programa. Invariavelmente haverá um homem nu, palavrões e - argh - crítica social. E, se a peça for baiana, ainda se tem de aturar a platéia.
Tiago: Mas, cotovelo, teatro é arte, teatro é vida. No teatro, nossos males são descobertos, nossas víceras expostas, nossas paixões…
cotovelo esquerdo de Tiago: (tapando os ouvidos) Ai, ai, por favor, pare, eu lhe suplico, eu lhe suplico.
Tiago: Mas, cotovelo, eu não lhe compreendo. Não é você que gosta de Shakespeare?
cotovelo esquerdo de Tiago: Não fale o nome do bardo em vão, por favor. Shakespeare só é bom na medida em que atualmente não se pode mais encená-lo. Shakespeare não é nem traduzível. Ainda assim, há aqueles que insistem em, como se diz?, adaptá-lo (começa a se coçar). Adaptar, adaptar… Se adaptar Shakespeare significa torná-lo acessível às platéias de Miguel Falabella, eu dispenso. Até Jô Soares inventou de adaptar Shakespeare agora.
Tiago: Mentira, sério?
cotovelo esquerdo de Tiago: Pois é. Veja nesse link.
Tiago: Santo Deus, é verdade. Nós precisamos ir ver.
cotovelo esquerdo de Tiago: Ai.
numa hora dessas?
da conversa
smartness & beauty

Esqueça todos as razões que já lhe apresentaram para dedicar sua vida ao aperfeiçoamento intelectual e concentre-se neste sorriso, neste olhar. Se isto não fizer você querer deixar de ser um filisteu, então é caso de má-formação congênita mesmo.
Um homem lê, lê, lê apenas para que mulheres assim olhem para ele assim.
