a arte da conversa

July 20, 2006

Você se importa se eu puser uns linques aqui?

Estava lendo as colunas de JP Coutinho na Folha, das mais antigas para as mais recentes, quando resolvi marchar retrospectivamente. Não me arrependo. Foi da coluna de 26.06.06, que veio esse trecho:

18 de Junho

Falo sozinho com frequência? Precisamente: tenho longas conversas que, às vezes, terminam com zanga séria. Desde logo porque é difícil conversar com alguém hoje em dia. Mesmo com pessoas próximas, com quem partilhamos tudo - trabalho, casa, saliva, doenças - é mais complicado do que parece. Por isso leio o texto de Boris Fausto na Folha, "Jogando conversa fora", com um sorriso de concórdia. De fato. Difícil não sentir alguma nostalgia pela boa e velha conversa, que o século 18 elevou a uma forma de arte. E não apenas nos salões de Paris. O "século da conversa" encontra-se também, ou sobretudo, em Londres e vários conversadores de excelência saltam de imediato: Goldsmith, Boswell, Reynolds e o incomparável Dr. Johnson, que cunhou a frase lendária «whoever goes to bed before midnight is a rogue» («quem vai para a cama antes da meia noite é um velhaco»).

Hoje é o contrário: as pessoas falam, sim, mas raramente conversam. Qual a diferença? Falar é coisa utilitária, que começa e acaba com um propósito comum. Conversar, não: desde logo porque "conversar" implica dois sentidos. Falamos e escutamos. E falamos. E escutamos. Como uma dança que precisa de dois parceiros: dois parceiros que avançam e recuam pelo simples prazer de dançar. Existe disputa. Mas existe também a natureza vagabunda de uma conversa: a forma como vai deambulando pelas ruas da intimidade sem ninguém saber exatamente como, para onde, ou porquê. Participamos apenas no "grande congresso internacional", como lhe chamava Robert Louis Stevenson num ensaio clássico sobre a matéria, "Talk and Talkers", que aconselho. Tudo isto implica um desprendimento do tempo, e da "cultura dos resultados", que a modernidade enterrou sem retorno.

Boris Fausto cita as festas de sociedade, onde as pessoas não conversam: vão disparando frases, tentando vencer a resistência do alarido. Vou mais longe: a cultura do ruído surgiu e instalou-se, precisamente, para esconder a vacuidade das pessoas. Para esconder, no fundo, como os seres humanos se tornaram desinteressantes. Nada para dizer. Nada para escutar. Às vezes, o ruído em volta é até um alívio (para eles) e uma benesse (para nós).

Eis um assunto que me interessa há algum tempo. Como se lê, há duas referências na coluna: uma para esta coluna de Boris Fausto, a outra para um ensaio, que ainda lerei, de Robert Louis Stevenson (aqui: parte 1, parte 2). Na coluna de Boris Fausto encontrei outra dica, agora desta resenha da "New York Review of Books" (trecho): 
Television and radio, alas, are no longer the only irresistible forces destroying conversation. They are now supported, perhaps even outdone, by iPods, cell phones, computers, BlackBerries, electronic games, Netflix, and the Internet. For years books, newspapers, magazines, movies, and recordings have helped people achieve what Miller calls "conversational avoidance," but in this new age of electronic miracles amok, conversation is being hard pressed to survive. The man who wants to say a few words of his own nowadays may have trouble finding anyone to listen, but never mind, he can always retreat to the solitude of his Web site and speak to the whole cyberworld through the electronic megaphone he calls his "blog."
 
Foi quando li isto que me veio a idéia de deixar este lembrete pra mim mesmo. E pra você, se lhe apetece. Agora posso dormir, oh, bom dia pra você também.

1 comentário »

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  1. ahhhh um amigo me mostrou uma vez um trecho desse texto do JP Coutinho!

    o diálogo sobre o luís melodia aconteceu msm???

    beijo,

    Comment by Gabriela — July 21, 2006 @ 2:26 pm

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