nail & flesh

June 29, 2006

Fossem nossas conversas taquigrafadas, teríamos um belo blog. A idéia de que a literatura é a melhor experiência estética pela simples razão de que ninguém é censurado por fechar ruidosamente um livro que não lhe agrada. Concluir que, se x não é tão bom quanto y, mas, ainda assim, é bom, não é correto dizer que x é pior que y, porque ser pior é ser mais ruim, o que nem x, nem y são. Considerar o rock a grande celebração do silêncio, na medida em que os três minutos de barulho nos fazem valorizar a sinfonia das pausas. Julgar que o sujeito que tenta agradar a todos, visando não ser chato, torna-se, por isso mesmo, o mais chato dos sujeitos. Tabaréis globalizados comendo broa com coke.

Amizade é a história dos grandes gestos minimalistas.

corre que dá

June 28, 2006

Pnin, de Nabokov (Companhia das Letras, 1997, Trad. Jorio Dauster, 185p): seis reais na LDM da Piedade. Havia dois; restou um.

Se interessar, aqui, no original. Aqui, uma resenha.

drummond, a pedra e o pai de cleo pires

No caminho para o computador tinha uma pedra falante que gostava de Drummond. Indagou-me que diabos ia eu fazer aqui, já que não tinha nada de importante para dizer. Perguntei-lhe como é que ela sabia disso, ao que ela respondeu que as pedras falantes são oniscientes, onipotentes e só não são onipresentes porque aí já seria João Gilberto.

Fiquei perplexo. Não pelo fato de a pedra falar - Fábio Jr. não fala também? - mas por só naquele momento ter me dado conta de que realmente não tinha nada de muito importante para dizer a vocês. O que não quer dizer que eu não tenha nada a dizer: sempre tenho algo a dizer, o que acontece é que às vezes, por preguiça, eu silencio. (Ei, revisor, pode-se dizer dizer quatro seis vezes em menos de cinco segundos sem medo de ficar careca?)

A pedra está aqui, do meu lado, declamando "Elegia 1938", fazendo pose e tudo, vocês precisavam ver. A literatura estragou tuas melhores horas de amor. Oh, really? Peço a ela um pouco de silêncio porque estou tentando dar uma palavrinha com meus amigos. Ela não dá ouvidos. É hoje.

Ignoremo-la. Tudo bem com vocês?

ei, cresci

June 25, 2006

A essa altura, todo mundo já ouviu falar do tal toque de celular que os adultos não ouvem (veja se você consegue ouvi-lo aqui).  Na verdade, trata-se de uma adaptação feita por adolescentes ingleses de um produto cuja intenção primeira era dispersar a vagabundagem que ficava em frente a lojas, sem fazer outra coisa senão vagabundar. O toque, uma espécie de zumbido agudíssimo que, por isso, atende pelo nome de "mosquito", passou para a internet e daí ganhou o mundo. Deu até na Veja, dia desses, e, se você até aqui ainda não tinha ouvido falar, não se desespere: esta é só mais uma daquelas notícias inúteis que só entram pra completar a pauta.

Foi num desses blogs da vida que eu ouvi o tal do toque. Bem irritante. Minha mãe, que já é adulta há um bom tempo, também conseguiu ouvir, o que confirma a tese de que as notícias da Veja que não são mentirosas, nem por isso são fidedignas.

Enfim. O caso é que Louis Menand, a pretexto de escrever sobre o "mosquito" - febre, lá nos EUA - nos presenteou com um texto cheio de wit na New Yorker dessa semana, em que faz uma crítica de gerações, a dele e a minha. No último parágrafo ele diz algo mais ou menos assim: "tudo bem que nós, grownups, não sejamos capazes de ouvir o ‘mosquito’. Os adolescentes, por seu turno, tadinhos, são incapazes de ‘ouvir’ este texto". Ah, deixa eu copiar e colar logo:

This means that some things that were once present to us become invisible, go off the screen; the compensation is that new things swim into view. Ramps are an example. Try getting a teen-ager to appreciate a grilled ramp. Try getting a teen-ager to appreciate another person, for that matter. We may lose hormones, but we gain empathy. The deficits, in other words, are not all at one end of the continuum. Readers who are over twenty may not hear the new ring tone; if they had it on their phones, it might as well be silent. But most readers who are under the age of twenty will not be able to “hear” this Comment. Yes, they will see the words, and they will imagine that they are reading something, and that it makes sense; but they can never truly “get it.” The Comment is simply beyond the range of their faculties. For all intents and purposes, if you’re under twenty, this page might as well be blank.

É. Se isso for verdade, eu posso finalmente me considerar um ex-teen.

E olá pra você também.

a tasteless vegetable on a stick

June 24, 2006

According to The Economist, that is Mr Alckmin’s nickname. (Link)

 

sem teto, com blog

June 22, 2006

Na Wired, hoje, uma matéria sobre sem-tetos americanos que levam uma vida virtual mais ativa do que a minha. Graças a laptops, conexões Wi-Fi em bibliotecas públicas, hotéis e cassinos, eles mantêm blogs, perfis no myspace, no flickr, no youtube, o diabo.

Terri Hellerich’s connection to the information superhighway is all that made life livable on the streets. "It kept me sane and provided my income," she said. Hellerich found herself homeless after a landlord in West Sacramento kicked her out and kept her belongings to make up for a debt. She didn’t have a change of clothes, but she did have an old cell phone that she could use to stay online and check her inbox.

Hellerich slept on benches but she frequented a women’s shelter with a cluster of internet-connected computers used mostly by the children who arrived at the safe house with their mothers. She started blogging and conducting a business. As an independent internet marketer, she was able to maintain bank accounts, nurse existing client connections and forge new business relationships. The business brought in only about $100 a month, but that was enough to help get her life back on track.

talking to himself*

June 19, 2006

Olá, Tiago. Sou eu: Tiago.

Caso não tenha percebido ainda, você é o mais assíduo leitor de seu próprio blog. Portanto, Tiago, eu, que também sou Tiago, continuarei postando coisas que interessem só a você e a mim, uma vez que, coincidentemente, somos a mesma pessoa, e não há nada que você possa fazer a respeito. Nem eu.

Exemplo. Dias atrás, lembra?, você postou algo sobre Ze Frank. Como sempre, ninguém deu a mínima importância, o que, convenhamos, é muito bom, pois você e eu continuamos sendo praticamente os únicos do bairro a se divertirem com "The Show". Jamais esquecer o primeiro mandamento pra quem quer quer tirar onda de *indivíduo* nowadays: o fato de mais de uma pessoa começa a gostar das mesmas coisas que você gosta é sinal de que você deve procurar outra coisa pra ser gostada urgentemente.

Mas que fique mais uma vez registrado: seu post, sabemos, foi uma cópia descarada do verbete da Wikipedia sobre Ze Frank. Não precisa se envergonhar disto, afinal, você não passa de um blogueiro cujo leitor mais assíduo sou eu (aka você mesmo) e o New York Times, ao que parece, fez o mesmo. (via Kottke).

Agora, vá dormir, porque amanhã, digo, daqui a pouco a gente tem que estar de pé.
______________

* título do post homenageia o blog de Allan Sieber. Lots of links, huh? Enjoy them all!

lower city

June 18, 2006
For those of us new to the sex trade on the northeastern coast of Brazil, “Lower City” will come as an education. Whole swaths of Sérgio Machado’s movie, in fact, are enticingly unfamiliar. When our heroes—a young black guy called Deco (Lázaro Ramos) and his white friend Naldinho (Wagner Moura)—chug downriver to the port of Salvador, delivering goods in their small boat, what to them is an ordinary trip feels to us queasy with foreboding, as perilous as the route pursued by Willard in “Apocalypse Now.”
 

oi

June 16, 2006

Eu já ia dormir. Mas só hoje peguei o link com o Träsel da entrevista do Polzonoff com Harold Bloom (o próprio), que já estava no ar desde segunda-feira. Apesar de só ter passado os olhos rapidamente, cri que poderia lhe interessar. Ah, eu leio depois, agora eu tenho que ir dormir porque amanhã, digo, hoje - daqui a pouco, pra ser mais exato - tenho prova (sei que você não tem nada com isso, tudo que estou pedindo é um pouco de solidariedade: reza aí). E a pergunta que você e eu estamos com vontade de fazer já foi feita:

Roberson said:

Aproveitando a oportunidade do elogio pela entrevista fica a dúvida: como se “consegue” uma entrevista com Harold Bloom?

de marré de si

June 14, 2006
Não, nem sempre fui assim. Até os três, quatro anos de idade, não vesti Armani, era banguelo e não falava uma palavra em Alemão. Eu sei bem como vocês, pobres, se sentem.

brasão da república

June 13, 2006

O que eu acho mais engraçado nisso tudo é que não é só a Seleção. É o Brasil. O BRASIL. Vestiu uma camisa da Seleção, "ih, ó, lá, veio de Brasil", vira patriota. Pergunte a qualquer Francenilson o que ele entende por amor à pátria. Enfeitar a rua com bandeirolas verde-amarelas. O mesmo Francenilson não sabe o nome de dois ministros de Estado, mas escala a Seleção, digo, o Brasil, de cor e salteado. Sabe até o nome completo do Cafu.

E como fica petulante o brasileiro, se achando o melhor do mundo. "Quer o quê, meu filho? é futebol-arte. É o melhor do mundo, não tem quem dê". Serve pra mostrar que o mundo não ia ser um lugar melhor se o Brasil estivesse no lugar dos States.

É o Brasil, é o Brasil.

quero morer de una batucada de banda

June 11, 2006
They live a drama, but they´re smiling: they take it easy. And they teach you, unconscientiously, how to do it, probably. They´re always saying ‘tudo bem’, it´s okay, not a big deal. And, then, when they say that, this actually is a big deal. Any catastrophe in Brazil became acceptable.
 
Só foto feia de favela, aidético, cemitério, gorda em hospício e travesti morto no ensaio fotográfico sobre o Brasil de Alex Majoli: Requiem in Samba. Muita atenção na versão, digamos, idiossincrática que ele faz de "Na Cadência do Samba". A propósito, alguém pode me dizer onde é que fica a favela de Ladera em Salvador de Bahia?

êa-baêa

Pesquisa comprova que torcedores do baêa são mesmo os mais imbecis.

a arte vai acabar! a cultura vai morrer!

June 9, 2006

Hoje, o site da BBC traz um debate entre John Perry Barlow, um dos fundadores da Electronic Frontier Foundation, e o presidente da Motion Picture Association of America, Dan Glickman. O tema, claro, só podia ser direito autoral.

O que mais me irrita nestas discussões é o discurso de que, se os artistas não forem totalmente compensados por seu trabalho, não haverá mais arte (lá pelas tantas, o presidente da MPAA diz que "if you don’t adequately compensate the artist, the director, the creator, the actor, they won’t do it in the first place so people won’t get movies").

Tudo bem que as big companies procurem manter a todo o custo seus lucros, sonhando com um tipo de regulação que breque totalmente a distribuição de seus produtos pelos emule da vida. Faz parte. Vão morrer tentando, mas é legítimo que defendam seus interesses. O que não dá é fazer isto com essa conversa fiada de que "oh, se vocês não pararem já com isto, os artistas não vão mais fazer arte e o mundo vai ficar feio e triste". OK, estou sendo um pouco ingênuo ao pedir que eles tirem a máscara e digam de uma vez "nada, o que a gente quer é manter nossos lucros e os nossos negócios do jeitinho que eram antes da internet". Só espero que eles também não sejam ingênuos ao ponto de achar que as pessoas vão acreditar no blablabla de que a arte vai acabar se eu continuar baixando torrent.

Dá vontade de dizer ao Mr. Glickman que 1) ele é muito feio; 2) uma coisa é a arte, outra coisa é o mercado que tem a arte por objeto; e 3) o verdadeiro artista, ao contrário da loja de roupas e da concessionária de veículos, não tem no lucro seu objetivo principal. Mas, ora bolas, ele já sabe de tudo isso.

Perdoe a minha falta de paciência para argumentar, fundamentar meu ponto de vista e tal. Proponho algo mais simples. Pega esse link, dá um ctrl+f, e tenta achar a palavra profit. Aproveita e lê também, que é muito bom.

this is Ze Frank thinking,

June 8, 2006

so you don´t have to. É provável que você ainda não conheça Ze Frank. É bem provável, eu diria. É probabilíssimo. Tanto mais porque quem procura por Ze Frank na Wikipedia em português acaba topando com o Zé do Caixão. Que também é bem engraçado.

Ah, sim, quem é Ze Frank. É um blogueiro. Formado em neurociência (what the hell is that?). Que faz vídeos. Que é engraçado quando não quer dar uma de analista político. Que teve seu blog considerado um dos 50 sites mais legais pela Time no ano passado. Que começou a apresentar "the show" - seu videolog - em 17 de março deste ano.

(Estava tudo aqui, só precisei copiar e colar. Viu, como é simples atualizar um blog? Faça o mesmo, old boy.) Pensar que tudo começou com um convite de aniversário para os amigos.

- Por que eu não consigo fazer nada parecido?

- Porque não, homessa!

Assistir a "the show" é uma mão na roda para quem está querendo treinar o inglês: Ze tem sotaque e fluência perfeitos. Muita atenção para como o rapaz articula bem as frases. Se é que você me entende.

numa tentativa frustrada de soar outros

June 5, 2006

Por esses dias, uma amiga, numa mensagem que me pareceu um tanto confusa, porque eu sou confuso, e tudo o que se põe diante dos meus olhos torna-se confuso também, uma amiga, dizia eu, que não necessariamente me considera amigo dela, coisa que até entendo, porque seria pedir demais, me disse, a amiga, que eu need to stop being so proud. Não me recordo se foram estas as palavras, também não sei se ela queria dizer que quem need to stop being so proud era ela, ou eu, porque ela não pôs, creio que propositadamente, o sujeito no diabo da frase. A angústia que passou a me atormentar, consumir meus dias, tirar meu sono - mentira, é pura curiosidade mesmo, é saber ao certo se ela quis dizer, considerando que o sujeito da frase era you, que eu precisava parar de ser:

a) arrogant;

b) conceited;

c) big-headed;

d) vain;

e) or just proud.

Isto tudo porque, sábado, passei a tarde na Siciliano da Barra, sim, às vezes eu me submeto a estas horrendas experiências para não esquecer a chamada vida real, repleta de gente perguntando ao vendedor se ainda tem aquele livro daquele filme, ou lendo coisas como Anjos brancos - Entre o céu e o inferno - Os bastidores do Real Madrid, enquanto ocupam as poltronas e me obrigam a sentar no chão para ler a primeira coletânea do Pasquim, maldizendo meus pais por não me terem feito nascer, sei lá, na década de 40 or something, de modo que eu pudesse ter ouvido João Gilberto no rádio e lido o Pasquim toda semana. E que, você aí, militante enrolado na bandeirinha, trate logo de tirar esse sorrisinho da cara e pare imediatamente de pensar que enxerga em mim um dos seus, porque ler e gostar de Pasquim não quer necessariamente dizer lutar, argh, contra, argh, a ditadura militar, argh.

Dizia eu que estava lá, lendo o livro que ainda hei de comprar, me deleitando com Paulo Francis, que, numa hora,  não com estas palavras, advertência que se faz necessária quando quem escreve já não sabe porque escreve e começa a trocar as teclas porque já devia estar na cama, diz que lhe era muito trabalhoso ter que se esforçar para ser, ao mesmo tempo, arrogante, presunçoso e outro adjetivo, que agora esqueci. Aliás, nem sei se foi isso mesmo que ele disse, no dia em que eu comprar o livro, eu volto e conserto este post, juro. 

I feel, I´m just on the phone…

June 2, 2006

e atire a primeira pedra quem não teve vontade de fazer o mesmo