Não sei se Paulo Henriques Britto traduziu "Reunion" em "O Mundo das Maçãs e Outros Contos" (Cia. das Letras, 1987 - me dá já ganhei) e só por isso mas mesmo assim deixei meu cachorro fazer essa versãozinha pra me alegrar.
Reunião
de John Cheever
A última vez que vi meu pai foi na Grand Central Station. Estava indo da casa de minha avó nas montanhas Adirondacks para uma casinha no Cabo que minha mãe tinha alugado, e escrevi para meu pai contando que estaria em Nova Iorque por uma hora e meia no intervalo entre um trem e outro, e perguntei se nós podíamos almoçar juntos. A secretária dele me escreveu para dizer que ele iria me encontrar no balcão de informações ao meio-dia, e às doze em ponto o vi saindo do meio da multidão. Ele era um estranho para mim – minha mãe se divorciara dele há três anos, e eu não tinha me encontrado com ele desde então – porém, tão logo o vi, senti que era meu pai, minha carne e meu sangue, meu futuro e minha condenação. Sabia que seria algo parecido com ele quando fosse adulto; teria de planejar minhas batalhas dentro de suas limitações. Ele era um homem grande, de boa aparência, e eu estava extremamente feliz por vê-lo de novo. Ele me deu um tapinha nas costas e apertou minha mão. "Olá, Charlie," disse. "Olá, rapaz. Queria te levar no meu clube, mas ele fica ali pela rua 60, e se você tem que pegar o trem cedo, acho que é melhor a gente ver algo pra comer aqui por perto." Ele passou o braço em volta de mim, e eu senti o cheiro de meu pai da mesma maneira que minha mãe sente o perfume de uma rosa. Era uma rica combinação de uísque, loção pós-barba, graxa de sapato, tecidos de lã e da posição que um homem maduro ocupa na sociedade. Desejava que alguém nos visse juntos. Tive vontade de que fôssemos fotografados. Queria algum registro de nosso encontro.
Saímos da estação e subimos uma rua lateral rumo a um restaurante. Ainda era cedo, e o lugar estava vazio. O barman estava discutindo com o garoto responsável pelas entregas, e havia um garçom bem velho metido num casaco vermelho à porta da cozinha. Nós nos sentamos, e meu pai chamou o garçom em voz alta. "Kellner!" gritou. "Garçon! Cameriere! Você!" Sua algazarra no restaurante vazio soava despropositada. "Será que a gente pode ter um atendimentozinho aqui?" gritou. "Vapt-vupt?" Aí, bateu palmas. Isso chamou a atenção do garçom, e ele veio arrastando os pés até nossa mesa. "Você estava batendo palmas para me chamar?" perguntou. "Calma, calma, sommelier," disse meu pai. "Se não for pedir muito – se não estiver muito além de sua obrigação, a gente vai querer dois Beefeater Gibsons."
"Não gosto que me chamem batendo palmas," disse o garçom.
"Devia ter trazido meu apito," disse meu pai. "Tenho um apito que só é audível aos ouvidos de garçons velhos. Agora, pegue seu bloquinho e seu lapisinho e veja se você entende direito: dois Beefeater Gibsons. Repita comigo: dois Beefeater Gibsons."
"Acho que é melhor vocês irem para outro lugar," o garçom disse baixinho.
"Essa," disse meu pai, "é uma das sugestões mais brilhantes que já ouvi. Vamos, Charlie, vamos dar o fora daqui."
Segui meu pai daquele restaurante para outro. Ele não foi tão ruidoso dessa vez. Nossas bebidas vieram, e ele quis saber tudo sobre o campeonato de baseball. Então bateu com a faca na beira do copo vazio e começou a gritar de novo. "Garçon! Kellner! Cameriere! Você! Seria muito incômodo trazer mais dois iguais a esses?"
"Qual a idade do garoto?" o garçom perguntou.
"Isso," disse meu pai, "não é de sua conta."
"Desculpe, senhor," disse o garçom, "mas não vou servir outra bebida pro garoto."
"Bem, tenho umas novidades pra você," disse meu pai. "Tenho algumas novidades bem interessantes pra você. Este não é o único restaurante em Nova Iorque. Abriram outro na esquina. Vamos, Charlie?"
Ele pagou a conta, e eu o segui daquele restaurante para outro. Aqui os garçons vestiam jaquetas cor-de-rosa semelhantes aos trajes de caçadores de raposa, e havia um monte de acessórios de montaria nas paredes. Nos sentamos, e meu pai começou a gritar de novo. "Mestre dos perdigueiros! ‘Raposa à vista’ e coisas desse tipo! A gente vai querer alguma coisinha parecida com aquele trago de boa sorte na caçada. Nomeadamente, dois Bibson Geefeaters."
"Dois Bibson Geefeaters?" o garçom perguntou, sorrindo.
"Você sabe direitinho o que eu quero," disse meu pai, com irritação. "Quero dois Beefeater Gibsons, e rápido. As coisas mudaram na boa e velha Inglaterra. É o que meu amigo duque me diz… Vamos ver o que a Inglaterra pode oferecer em matéria de coquetel."
"Aqui não é a Inglaterra," disse o garçom.
"Não discuta comigo," disse meu pai. "Faça apenas o que lhe mandei."
"Só achei que vocês poderiam gostar de saber onde estão," disse o garçom.
"Se existe uma coisa que não consigo tolerar," disse meu pai, "é um criado boçal. Vamos, Charlie?"
O quarto lugar aonde fomos era italiano. "Buon giorno," disse meu pai. "Per favore, possiamo avere due cocktail americani, forti, forti. Molto gin, poco vermut."
"Não falo italiano," disse o garçom.
"Ah, deixa de brincadeira," disse meu pai. "Você fala italiano sim, e sabe muito bem disso. Vogliamo due cocktail americani. Subito."
O garçom nos deixou e falou com o gerente, que veio até nossa mesa e disse, "Desculpe, senhor, mas esta mesa está reservada."
"Tudo bem," disse meu pai. "Arrume outra pra gente."
"Todas as mesas estão reservadas," disse o gerente.
"Entendi," disse meu pai. "Não querem nossa freguesia. É isso? Bem, vão pro diabo. Vada all’inferno. Vamos, Charlie."
"Tenho que pegar meu trem," eu disse.
"Desculpe, meu filho," disse meu pai. "Me desculpe." Passou o braço em volta de mim e me apertou contra si. "Eu levo você na estação. Se pelo menos tivesse havido tempo de ir no meu clube."
"Está tudo bem, papai," disse eu.
"Vou comprar um jornal pra você," ele disse. "Vou comprar um jornal pra você ler no trem."
Então ele foi até uma banca de jornal e disse, "Meu bom senhor, o senhor poderia fazer a gentileza de me arranjar um desses seus benditos pasquins vespertinos de 10 centavos?"
O vendedor lhe deu as costas e ficou olhando a capa de uma revista. "Isso é pedir demais, meu bom senhor?" disse meu pai, "É demais pedir pra que o senhor me venda um desses seus espécimens nojentos da imprensa marrom?"
"Tenho que ir, pai," eu disse. "É tarde."
"Agora espera só um segundo, meu filho," ele disse. "Espera só um segundo. Quero tirar um sarro com a cara desse camarada."
"Adeus, papai," eu disse, e desci as escadas e peguei meu trem, e aquela foi a última vez que vi meu pai.